
A gente está se vestindo tudo igual, e isso tem nome, data e revista
Em 1893 saiu um artigo prevendo como as pessoas se vestiriam no século seguinte. Entre as apostas estavam calças bufantes e chapéus em forma de rosquinha, que estariam em alta em 1965.
Em 1965, o que estava em alta era outra coisa, mas também não era o que a gente usa hoje.
Eu fui ler um capítulo sobre por que a gente está todo mundo começando a se vestir igual, e o capítulo começa exatamente aí: com as previsões erradas.
O futuro que não chegou
Nos anos 60, na França, três estilistas ficaram famosos por uma estética que a gente chamaria hoje de Era Espacial: André Courrèges, Pierre Cardin e Paco Rabanne. Formas geométricas grandes, materiais de alta tecnologia, otimismo.
Em 1965, Courrèges apresentou a coleção dele dentro de uma galeria, com as modelos ocupando o lugar das obras de arte, cercadas de móbiles girando e esculturas cinéticas. Os três trabalhavam com vinil, plástico lenticular e lurex. Cardin chegou a criar o tecido dele, chamado Cardine.
Duas ironias que o livro aponta e que eu achei ótimas.
Primeira: aqueles sintéticos eram o que havia de mais avançado, e hoje sintético é exatamente o que a gente aprendeu a olhar com desconfiança por causa do impacto ambiental. O material de ponta virou o material problemático.
Segunda: o design modernista daqueles anos, que era a vanguarda, virou o emblema do estabelecimento. Móvel de meados do século é vendido a peso de joia. A roupa daquela época está em arquivo com temperatura controlada.
E o futuro de verdade, o que a gente de fato veste? Separados simples em cor neutra, tênis que serve pra tudo, roupa confortável que parece de academia. O livro resume numa troca de palavras que me fez rir: não foi macacão espacial, foi Uniqlo.
O que aconteceu tem nome, data e revista
Em 2014, a revista New York publicou um texto de Fiona Duncan com um título que é meio soco: algo como "moda pra quem percebeu que é uma em 7 bilhões".
Duncan tinha notado uma coisa entre os amigos dela, jovens, criativos, nova-iorquinos: eles estavam se vestindo como pais de família. Ou como turistas. Ou como pais de família que também eram turistas. Jeans desbotado, fleece, tênis confortável — gente que parecia ter acabado de descer do metrô depois de fazer compras na Times Square.
O nome que ela usou foi normcore, e ele veio de um grupo de previsão de tendências chamado K-Hole. O livro faz uma correção técnica que eu achei importante: o K-Hole depois esclareceu que o que o artigo descrevia era mais parecido com outro termo deles, acting basic. Normcore era um comportamento; acting basic era a roupa. Mas quem pegou foi normcore, então é a palavra que ficou.
A definição de Duncan: abraçar a semelhança de propósito como um jeito novo de ser interessante, em vez de buscar diferença ou autenticidade.
O guarda-roupa: jeans desbotado, boné simples, tênis sem marca, pochete, corta-vento. Os ícones: Seinfeld dos anos 90, Steve Jobs, Larry David hoje.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
Por que isso aconteceu justamente em 2014
Essa é a parte que explica o resto, e é sobre dinheiro.
O livro observa que o normcore floresceu exatamente quando o street style, os blogs de estilo pessoal e o Instagram deixaram de ser auto-expressão e passaram a ser oportunidade de patrocínio. Toda revista e todo site tinham sua coluna de street style. Blogueira de estilo ganhava contrato de roupa. Instagrammer ganhava post pago.
E aí a ordem de "construa o seu estilo pessoal totalmente único" começou a soar diferente. Começou a soar como uma operação da indústria.
Um dos entrevistados, editor de um fanzine de moda, chamou o normcore de uma faceta de um sentimento antimoda crescente, e descreveu o jeito como ele mesmo se vestia — cáqui, fleece, tênis velho — como um "jeito de nada" que servia pra se absolver da moda.
E a resposta mais interessante veio de dentro do K-Hole, de Emily Segal, que disse que não era sobre abrir mão da individualidade e virar massa uniforme. Era sobre aceitar a possibilidade de ser reconhecível, de parecer com outras pessoas — e enxergar isso como oportunidade de conexão, e não como prova de que a sua identidade se dissolveu.
Tem uma frase do relatório deles que eu li três vezes: antigamente as pessoas nasciam dentro de uma comunidade e tinham que encontrar a individualidade delas; hoje as pessoas nascem indivíduos e têm que encontrar a comunidade delas.
A ironia da loja que vendia isso
A Gap foi fundada em 1969, em São Francisco, como uma loja de contracultura. O nome vem do generation gap, a distância entre os hippies e os pais caretas deles.
Depois ela virou exatamente o contrário: uma vendedora de roupa simples e conservadora. Mas olha o que ela usou como argumento de venda — as pessoas que vestiam a roupa.
Nos anos 80, no auge do yuppie, a Gap fez uma campanha chamada Individuals of Style, com Joan Didion, Spike Lee e o galerista Leo Castelli como modelos. No começo dos anos 90, outra campanha usou fotos de arquivo de Miles Davis e Jack Kerouac vestindo cáqui.
E em 2014, depois que o artigo sobre normcore saiu, a Gap lançou uma campanha com a instrução "vista-se normal".
A loja que vendia roupa anônima passou trinta anos provando que roupa anônima é o que deixa a pessoa aparecer.
A frase que serve pra mesa também
E aqui está a razão pela qual eu quis escrever isso numa casa que fala de mesa posta.
A autora conta que, ao olhar as fotos de um coletivo de artistas todo vestido igual, o que aconteceu com ela foi o oposto do esperado: a uniformidade da roupa fez ela focar nas diferenças entre as pessoas. E ela diz, sobre os retratos em preto e branco da campanha da Gap, que a roupa ali é secundária — "uma folha em branco que faz a personalidade aparecer".
Isso é exatamente o que eu acredito sobre mesa. Toalha branca passada não é falta de ideia. Prato branco não é falta de personalidade. É fundo.
E se você já fez o nosso quiz dos quatro estilos de mesa, você viu a mesma frase do outro lado: toda mesa posta tem um estilo, mesmo quando ninguém escolheu nenhum. Simples não é ausência. É escolha com menos barulho.
Por que a mesma saia aparece em todo mundo
Essa é a parte de utilidade pura, e é a melhor coisa do capítulo.
O livro descreve uma fórmula de duas partes atrás das peças que viralizam — o casaco que "todo mundo achou na internet", a saia de oncinha que tomou um bairro inteiro, o vestido de morango do TikTok:
- A peça tem que ter uma origem meio obscura, pra dar sensação de descoberta, em vez de parecer que foi empurrada por desfile ou propaganda.
- E tem que ser instantaneamente legível — uma cor, uma estampa ou um formato que você reconhece do outro lado da rua.
Descoberta mais legibilidade. É isso. Quando você entender essas duas partes, você começa a ver a engrenagem funcionando em tempo real, e fica mais fácil decidir se você quer aquilo ou se você só quer pertencer por um mês.
Tem até um perfil de Instagram, o @Insta_Repeat, que junta fotos quase idênticas de gente diferente fazendo as mesmas poses de natureza — o pé esticado na frente da fogueira, a mão segurando um passarinho contra a paisagem. A busca individual registrada em série.
E uma correção honesta
O livro faz um argumento sobre a palavra "básica" que eu acho forte, e eu vou te dizer que é um argumento, não uma medição.
No mesmo ano e na mesma revista, outra autora escreveu sobre a diferença entre o normcore, que era celebrado, e ser chamada de "básica", que era humilhação. A tese dela: a palavra finge criticar falta de originalidade, mas o que ela está de fato descartando é padrão de consumo — e não o consumo em si. O pecado não é gostar de comprar; é querer as marcas erradas, as que se anunciam alto e têm acionistas pra satisfazer. As marcas "certas" são mais caras, mais discretas e geralmente de capital fechado.
Em outras palavras: a diferença entre as duas palavras é classe.
Eu acho essa leitura convincente, e acho justo te avisar que existe outra: que "básica" descreve mesmo uma relação pouco curiosa com o próprio gosto, independente de preço. Dá pra defender as duas. O que me parece difícil de contestar é o terceiro ponto dela, que é factual — a palavra é usada quase exclusivamente contra mulheres. O equivalente masculino não existe com a mesma carga.
O que eu vou fazer
Parar de me sentir sem imaginação por ter três camisetas brancas iguais. E, quando uma peça aparecer em todo mundo ao mesmo tempo, fazer as duas perguntas da fórmula antes de comprar: a origem é descoberta ou propaganda? E eu quero essa peça, ou eu quero fazer parte?
Se esse assunto te interessa, o estilo francês sem esforço é um produto, e o mecanismo real é um uniforme. E se você quer ver a versão antiga e legal disso, já foi literalmente ilegal se vestir acima da sua posição.
Se você quiser o resto do que a gente está montando pra temporada, reuni tudo numa página, com um checklist da mesa pra baixar.
E se o seu projeto é a mesa de dezembro, A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo, com o detalhe da goma que decide se a dobra fica de pé. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: você tem um uniforme particular, aquela combinação que você veste quando não quer pensar? Aqui é calça preta e camiseta branca, cinco dias por semana.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Tudo o que importa numa mesa de Natal, em uma folha só. Para imprimir ou preencher no computador.
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
