
Durante séculos foi ilegal se vestir acima da sua classe. E nunca funcionou.
Eu tenho uma implicância antiga com a frase "isso não é apropriado para a ocasião".
Ela sempre me pareceu uma coisa que alguém inventou para controlar outra pessoa. Essa semana eu descobri que isso já foi literalmente lei.
O que aconteceu no século XIII
A sequência é curta e é inteiramente reconhecível.
Primeiro, o tecido bom ficou mais disponível. Comércio crescendo, mais pano circulando, mais gente conseguindo comprar.
Segundo, a classe mercantil e a classe ociosa começaram a imitar a moda da nobreza. Não um pouco: o suficiente para incomodar.
Terceiro, e é aqui que fica absurdo: a imitação virou caso de justiça. Foram criadas leis para controlar o que pessoas de cada nível social podiam usar. Chamam-se leis suntuárias.
E o livro, que é uma história da moda bastante contida no tom, avalia o resultado numa frase curta: elas raramente surtiam efeito.
Séculos de legislação sobre tecido, cor, comprimento e ornamento, para controlar quem podia parecer com quem. E o resultado documentado é que não deu certo.
Eu reli umas quatro vezes.
O que a roupa estava fazendo nesse meio-tempo
A parte que me fez rir foi perceber o que a moda estava aprontando exatamente enquanto a lei tentava segurá-la.
Década de 1390. Críticos reclamavam que os decotes estavam tão largos que o peito parecia querer escapar deles. Um vestido italiano desse momento aparece no livro sem cinto nenhum, que era o estilo italiano da época.
1415 a 1417. Um cronista registrou chapéus com "chifres" absurdamente altos e largos, com apêndices compridos dos dois lados. E isso não é exagero de cronista irritado: a efígie funerária da Condessa de Arundel, de 1415, mostra exatamente esse formato.
Alguém olhou para aquilo e achou grotesco o suficiente para escrever. E a mulher mandou esculpir o mesmo chapéu no próprio túmulo.
Mantos e sobrevestes sem manga viraram, nesse período, marca de nobreza — ou seja, a própria peça passou a sinalizar posição. É exatamente o mecanismo que as leis suntuárias tentavam congelar.
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E agora a parte que eu mais quero que você leia
No retrato que van Eyck pintou em 1434, a noiva usa roupa italiana para um casamento em Flandres.
E o livro faz uma observação sobre o vestido dela que vale mais que o quadro inteiro: o volume do forro de pele, quando o vestido é erguido e segurado na frente, produz uma barriga proeminente.
Que era, naquele momento, o formato da moda.
Lê de novo. A silhueta desejável de 1434 incluía um ventre arredondado, e as mulheres produziam esse volume de propósito, com técnica, levantando o tecido.
Uma observação de honestidade: existe uma discussão longa e não resolvida na história da arte sobre se a mulher daquele quadro está grávida ou não. Eu não vou resolver isso aqui e não estou tentando. O que eu estou usando é o que o livro afirma sobre o vestido — que o forro, levantado, dá esse volume, e que o volume era moda.
Mas a conclusão não depende do caso dela. Depende do fato de que existiu um século em que a barriga era a parte bonita, e em que se trabalhava para tê-la.
A gente trata o formato do corpo desejável como se fosse um fato da natureza. Ele é um calendário.
Isso conversa com uma coisa que eu já escrevi aqui sobre como o rosa foi cor de menino antes de ser cor de menina: a regra parecia natural, era recente, e inverteu.
Por que isso é um assunto de dezembro
Porque dezembro é quando a roupa vira assunto na família.
É o mês em que alguém comenta o que a outra está usando. É o mês do "você vai assim?". É o mês em que muita gente abre o armário e decide por antecipação que não tem nada adequado, e a palavra adequado está fazendo um trabalho pesadíssimo nessa frase.
Então vale ter em mente de onde vem essa ideia.
Não existe uma noção neutra de roupa apropriada. A ideia de que certas roupas pertencem a certas pessoas tem uma história documentada, e essa história é de legislação, fiscalização e descumprimento. Não é de bom gosto. É de controle de fronteira social.
E aqui está a parte que eu acho a melhor notícia do capítulo: nunca funcionou.
As leis existiram, foram escritas, foram aplicadas, e as pessoas continuaram se vestindo como queriam parecer. A moda ganhou essa briga por desgaste, século após século, só por teimosia.
O limite deste livro, dito na cara
É um livro ilustrado de referência, organizado por período, com texto curto ao lado de imagens. Ele é excelente para datar uma peça e péssimo para aprofundar um argumento.
Concretamente: ele menciona que as leis suntuárias existiram e que raramente funcionavam, mas não traz nenhuma lei específica, nenhum país, nenhuma pena, nenhum caso julgado. Eu não completei esse buraco com chute, e por isso este post fala do mecanismo e não de um estatuto.
Da mesma forma, a reclamação sobre decote está no livro como reclamação de críticos da época, sem nome e sem fonte citada. Eu tratei como o que é: registro de que alguém reclamou, não documento.
Se um dia eu encontrar uma lei suntuária específica com texto e pena, isso vira outro post e vale a pena.
O que eu levo para o armário
Três coisas, e as três são sobre parar de pedir licença.
A primeira: quando você sentir que uma roupa é boa demais para a ocasião, lembra que essa frase tem oitocentos anos de uso documentado e que a função original dela era impedir que as pessoas parecessem melhores do que a posição que lhes tinha sido dada.
A segunda: o formato do seu corpo não está em conformidade ou fora de conformidade com nada permanente. Em 1434 o ventre era o ponto alto do vestido. Isso vai mudar de novo, e provavelmente já mudou duas vezes desde que você se formou uma opinião sobre o assunto.
A terceira, mais prática: se você tem uma peça guardada esperando uma ocasião à altura dela, dezembro é a ocasião. A Condessa de Arundel botou um chapéu ridículo na própria lápide. Você pode usar o vestido bom numa quinta-feira.
Se você quiser o resto do que a gente está montando para a temporada, reuni tudo numa página, com um checklist da mesa para baixar.
E se você gosta desse tipo de detalhe, o jeito como os pintores flamengos encheram as casas de objeto com significado está neste post sobre a ratoeira pintada — é o mesmo mundo, e a roupa daquele quadro vem exatamente dessa discussão.
Para a mesa onde o vestido bom vai sentar: A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: tem alguma peça no seu armário esperando ocasião? Aqui tem, e ela está esperando há três anos.
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