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Em 1937 uma italiana lançou um rosa que ninguém achou fofo
Moda
Publicado em 16 de agosto de 2026

Em 1937 uma italiana lançou um rosa que ninguém achou fofo

Tem um vaso rosa na estante da minha sala que eu nunca uso sozinho. Sempre coloco alguma coisa marrom do lado, ou prata, ou um pedaço de madeira escura. Levei anos para reparar que eu fazia isso de propósito, como se o rosa precisasse de um adulto por perto para poder ficar na sala.

A resposta não estava em mim. Estava numa italiana que morreu em 1973.

Quem foi a mulher que inventou o rosa da passarela

Elsa Schiaparelli nasceu em Roma, em 1890, numa família aristocrática e conservadora de intelectuais. Publicou poesia quando ainda era adolescente, o que já não caía bem em casa.

Em 1913, a caminho de Londres, foi ao primeiro baile da vida dela em Paris com um vestido azul e laranja que ela mesma tinha feito. Seis anos depois estava em Nova York, andando com Man Ray, Marcel Duchamp e Francis Picabia. Voltou para Paris em 1922, e foi o Paul Poiret que insistiu para ela desenhar roupa.

Ela nunca fez formação em alta-costura. Nem ela nem a rival dela, a Chanel. Talvez por isso as duas tenham tido tanta facilidade em ignorar as regras do ofício.

A primeira coleção dela, em 1927, era de suéteres feitos à mão. A loja abriu no ano seguinte na Rue de la Paix, número 4, com uma placa que dizia "Pour le Sport" embaixo do nome. Depois vieram "Pour la Ville" e "Pour le Soir".

Em 1931, uma tenista chamada Lili de Álvarez apareceu em Wimbledon com uma saia-calça desenhada por ela. Houve escândalo público. A tenista recebeu ameaças de morte, e um jornal inglês escreveu que ela merecia uma surra pela escolha da roupa.

O rosa

Em 1937 Schiaparelli lançou uma magenta violenta e chamou de shocking pink. Naquele momento, os rosas que existiam na moda eram todos pálidos e comportados. O dela não era nada disso.

Como a cor apareceu tem duas versões que não combinam.

Numa biografia escrita por Meryle Secrest, o joalheiro francês Roger Jean-Pierre mostrou a ela uns desenhos de botões cor-de-rosa, ela escolheu o mais berrante e disse: "vamos chamar de Shocking Pink". Na versão que Kassia St. Clair conta, a socialite Daisy Fellowes estava numa reunião com ela usando um diamante rosa da Cartier, e foi dali que veio a ideia.

Não sei qual das duas é verdade e gosto que ninguém saiba.

O que Schiaparelli falava da cor, isso está registrado: para ela era um tom "que dá vida, como toda a luz e todos os pássaros e todos os peixes do mundo juntos, uma cor da China e do Peru, mas não do Ocidente".

A editora de moda Bettina Ballard resumiu o efeito que ela teve na década: mudou o contorno da moda de macio para duro, de vago para definido.

O rosa entrou em tudo depois disso. Ela desenhou com Salvador Dalí um chapéu em formato de sapato com o salto shocking pink. Da mesma parceria saiu o vestido Tears, de 1938, com o tecido estampado para parecer rasgado, mostrando um forro rosa por baixo. Ela também fez chapéu em formato de costeleta de carneiro, botões em formato de peixe, de pirulito e de trapezista, e usou celofane e um plástico transparente chamado Rhodophane em roupa de festa.

No mesmo ano do rosa ela lançou o perfume Shocking, num frasco no formato do busto da atriz Mae West.

A Women's Wear Daily da época escreveu que em todo lugar você era recebida por chapéus inteiros naquele rosa petúnia ousado, às vezes berrante, que tinha começado com o Shocking dela.

Não terminou bem. Depois da guerra, a moda virou para o ultrafeminino, e o jeito duro dela parou de encaixar. Ela tinha passado o conflito em Nova York e voltado para Paris em 1945. Em 1954 parou de desenhar e publicou a autobiografia, chamada Shocking Life. Morreu em Paris em 1973.

O tom continua andando por aí sem ela. A NARS tem um batom chamado Schiap, batizado a partir de uma caixinha de pó dela que um amigo do François Nars achou numa feira de velharias.

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A ordem dos fatos é o que me interessa

Guarde as duas datas.

O rosa da passarela, aquele agressivo, sexual, feito para uma mulher que queria ser vista, é de 1937.

A regra de que rosa é de menina e azul é de menino veio depois, mais ou menos nos anos 1940, quando os pais começaram a separar roupa de criança por cor de forma sistemática. Antes disso o rosa era só uma cor.

Ou seja, o rosa alto veio primeiro. O rosa doce é que foi colado nele depois, por gente vendendo enxoval.

E aí vieram os anos 1980 e 90, que fecharam o cerco: quase todo brinquedo de menina saía em alguma variação de rosa, e a Barbie chegou a ter um tom próprio registrado, com número de Pantone. Quando essa geração cresceu, a cor já não significava só "feminino". Significava jovem demais, boba, pouco competente.

Setenta anos para transformar uma cor que assustava numa cor que constrange.

2016

Por volta de 2016 apareceu em todo lugar um rosa diferente. Dessaturado, meio acinzentado, quase feio de propósito. Estava em embalagem de maquiagem, em parede de cafeteria, em capa de livro e em anúncio de metrô ao mesmo tempo.

Tecnicamente foi estranho. Uma cor normalmente desce da passarela para a loja de rua, ou sobe da rua para a alta-costura. Essa não fez nem uma coisa nem outra, apareceu em todos os andares junto. A jornalista que escreveu o primeiro texto tentando entender o fenômeno acabou batizando a coisa sem querer de "millennial pink", e hoje ela mesma olha para aquilo com desconfiança. A crítica dela é justa: a cor virou atalho comercial, um jeito rápido de dizer "isto aqui é para mulheres, compre".

Aqui vai a minha opinião, sem meio-termo: aquele rosa era pior que o de 1937. Ele tinha a doçura removida para poder ser levado a sério, o que quer dizer que ele pediu licença. Schiaparelli não pediu licença nenhuma.

O que eu levo disso

Existe uma frase que circula como se fosse elogio, aquele "você não é como as outras meninas".

A estilista Rachel Antonoff responde melhor do que eu conseguiria. Ela diz que é exatamente como todas as meninas que ela achou legais, inteligentes e engraçadas, e lembra que ninguém diz essa frase para um homem. Depois resume tudo em seis palavras: a gente pode ser séria e gostar de rosa.

A regra que grudou na cor tem uns oitenta anos e foi inventada por gente vendendo roupa de bebê. Você não assinou nada.

Como eu uso, na prática

  • Rosa gosta de companhia. Sozinho ele fica infantil rápido. Com marrom cacau, com creme, com madeira ou com prata envelhecida, fica adulto na hora.
  • Escolha o tom pela luz da sua casa. Rosa blush em luz quente fica acolhedor. O mesmo tom em luz fria fica doente. Teste na sala onde a coisa vai ficar, não na loja.
  • Um rosa por vez. Dois tons que quase combinam é o jeito mais rápido de deixar uma mesa confusa.
  • Funciona melhor como acento. No laço do guardanapo, na flor, no batom. A mesa inteira rosa é uma decisão bem maior, e tudo bem tomá-la, desde que seja decisão.

Depois de ler sobre ela eu comprei um esmalte num rosa que eu jamais teria escolhido, desses que não combinam com nada que eu tenho. Usei duas semanas. Meio ridículo, e eu gostei.

Me conta qual foi a última cor que você deixou de usar porque alguém, em algum momento, te fez achar que ela dizia alguma coisa a seu respeito.

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