
Em 1650 o Parlamento inglês tentou proibir o blush
Em 1650, durante o governo de Cromwell, alguém apresentou no Parlamento inglês uma proposta de lei contra o "vício de pintar-se". Contra o blush, basicamente. E contra aquelas pintinhas pretas que as mulheres colavam no rosto.
A proposta foi lida uma vez. E morreu ali.
Eu penso muito nisso quando estou com pressa e passo só o blush antes de sair. Existiu um momento em que um parlamento inteiro achou que valia a pena legislar sobre a minha bochecha, e desistiu porque já era tarde demais. O hábito estava enraizado demais para ser proibido.
O cosmético mais antigo que existe
O vermelho no rosto é mais velho que quase tudo que você tem na gaveta.
Os primeiros ruges eram bastões de ocre vermelho: óxido de ferro misturado com gordura animal ou óleo vegetal, num formato e tamanho que lembra os lápis grossos de sombra que a gente usa hoje. Milhares de anos separam as duas coisas, e o objeto é quase o mesmo.
Depois vieram outras fontes. Insetos, cochonilha e quermes, secos e transformados em carmim. Plantas: cártamo, raiz de alcana, amora esmagada, morango, beterraba, amaranto, garança. E também minerais lindos e absolutamente venenosos, como o cinábrio, que ninguém deveria repetir hoje.
Até o século XIX o ruge era feito em casa, receita por receita. Só então as farmácias começaram a vender pronto.
A mesma coisa nos lábios e nas bochechas
Uma coisa que me libertou: historicamente, o pigmento vermelho sempre serviu para os dois lugares. Boca e bochecha, o mesmo produto.
A ideia de que você precisa de um batom, um blush líquido, um blush em pó e um bálsamo com cor é comercial, não histórica. Um creme ou uma tinta que funciona nos dois é o jeito normal de fazer isso há séculos. Não é atalho de quem tem pressa.
No Japão, as gueixas usam o beni: um potinho forrado com cártamo seco que, molhado, vira vermelho vivo. Um produto, dois lugares, e o gesto de molhar o pincel antes.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
Onde exatamente colocar
Aqui a história dá duas opções, e as duas continuam usáveis.
Na Grécia antiga, já no século IV a.C., o vermelho ia na maçã do rosto. É onde a maioria de nós coloca até hoje.
Nos retratos do século XVI aparece outra coisa: um triângulo invertido, começando na maçã e descendo. Mais dramático, mais alongado. Se você já achou que blush na maçã deixa o seu rosto redondo demais, experimenta descer um pouco. Não é invenção de tutorial, é do século XVI.
E tem o registro do conde Axel von Fersen sobre uma nobre francesa que aplicava ruge de seis potes diferentes, dois de cada vez, sobre uma base que parecia mais preta que vermelha. Camadas. Tons misturados. A ideia de que blush é um produto só, chapado, é bem mais recente que a ideia de misturar.
Uma pausa sobre Maria Antonieta
O ritual dela era duas coisas separadas.
Tinha a toalete privada, de manhã: lavar o rosto, o pó, o cabelo. E tinha a toalete pública, que começava ao meio-dia, com plateia. A aplicação do ruge era a etapa mais concorrida de todas. As pessoas iam até lá para ver aquilo.
O detalhe que eu acho mais humano da história inteira: por volta de 1780 ela já tinha praticamente abandonado o ruge. Depois de anos sendo a maior referência de maquiagem da Europa, ela simplesmente parou.
No fim da vida, o que restava do kit dela era pó, uma esponja e uma caixinha de pomada.
E aí o vermelho sumiu por um tempo
A rainha Vitória declarou que maquiagem era vulgar, e por décadas o rosto pálido voltou a ser a regra. Não porque alguém tivesse descoberto algo, mas porque uma mulher com influência disse que sim.
Foi a rainha Alexandra, décadas depois, que voltou a usar pó e ruge abertamente e tornou aquilo aceitável de novo. Duas mulheres, duas opiniões, e o rosto de meio continente mudando atrás.
O que eu tiro disso: a regra sobre o que é "demais" nunca foi técnica. Foi sempre alguém com poder achando alguma coisa.
Ferramenta certa para a textura certa
Essa é a parte prática que mais mudou as minhas manhãs.
Historicamente, a ferramenta era escolhida pela textura do produto, não por hábito. Dedos, pincel de pelo de camelo, pata de lebre, esponja de pó. Cada formulação pedia uma coisa.
Hoje quase todo mundo tem um pincel só e usa nele tudo. Testa assim:
- Creme ou bastão: dedo. O calor da pele derrete o produto e ele se funde em vez de ficar por cima.
- Pó: pincel macio e grande, batido antes para tirar o excesso.
- Tinta ou líquido: esponja levemente úmida, com toques, nunca esfregando.
Três minutos de teste, e o mesmo blush que você já tem parece outro produto.
O que sobrou de tudo isso na sua nécessaire
Duas invenções antigas que continuam entre a gente, disfarçadas.
A lã espanhola: discos de tecido de uns quatro centímetros tingidos com cochonilha, que se passava na boca e no rosto. E o papel espanhol, a versão portátil, folhas impregnadas de pigmento que cabiam na bolsa.
Olha o seu blush em bastão e o seu papel de blotting e me diz que não é a mesma ideia.
Uma coisa que eu acredito
O vermelho é a cor mais antiga da vaidade humana e sobreviveu a proibição parlamentar, a rainha entediada e a duzentos anos de gente dizendo que era coisa de mulher fútil.
Coco Chanel resolveu em oito palavras: "o vermelho é a cor da vida, do sangue."
Se um Parlamento inteiro não conseguiu tirar isso de nós, eu não vou perder tempo me sentindo boba por gostar.
Me conta uma coisa: você usa blush todo dia ou só quando vai sair? Eu estou tentando entender se sou só eu que passo mesmo para ficar em casa.
Leia também
- Em 1937 uma italiana lançou um rosa que ninguém achou fofo — A cor que virou regra sem nunca ter sido uma.
- Rembrandt se pintou a vida inteira — e o retrato mais amado é o menos favorecido — O rosto sem disfarce, e por que ele comove mais.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Tudo o que importa numa mesa de Natal, em uma folha só. Para imprimir ou preencher no computador.
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
