
Dois holandeses passaram a vida pintando a mesa depois da refeição
Tem um tipo de foto de mesa que eu não vejo quase nunca: a de depois.
Depois que todo mundo levantou. O guardanapo amassado do lado do prato, a taça pela metade, a casca de limão enrolada, a faca largada atravessada. A mesa quando ela já serviu para alguma coisa.
Eu fui procurar outra coisa numa enciclopédia de arte e descobri que isso já foi um gênero inteiro, e que dois holandeses do século XVII passaram a vida pintando exatamente essa cena.
Pieter Claesz. e Willem Claesz. Heda
Antes de qualquer coisa, uma confusão que eu preciso tirar do caminho: os dois têm Claesz. no nome e a enciclopédia não diz que eles eram parentes. Não vou inventar que eram.
Pieter Claesz. nasceu por volta de 1597 em Burgsteinfurt, na Vestfália, e morreu em 1661 em Haarlem. O verbete dele diz, direto: seus temas mais característicos eram mesas postas para uma refeição, ou contendo os restos de uma refeição.
Willem Claesz. Heda nasceu por volta de 1593 e morreu por volta de 1680, os dois em Haarlem. Começou pintando alguns retratos e algumas obras religiosas, e aí passou a se dedicar só à natureza-morta. O trabalho datado mais antigo dele é uma Vanitas, de 1621.
E sobre os dois juntos a enciclopédia diz uma frase que eu fiquei relendo: foram os grandes pintores das mesas carregadas ou dos restos de uma refeição.
Os grandes. Não os únicos, não os curiosos. Os grandes.
E repare no que está em cima dessas mesas: taça, jarro de estanho, louça, pão. São os mesmos objetos sobre os quais eu venho escrevendo o ano inteiro, inclusive o brinde, que começou como imitação de sino. Eles estavam ali em 1630, já com alguém achando que valia a pena olhar para eles.
A parte que me fez fechar o livro e pensar
Heda sabia pintar coisa cara.
O verbete diz que ele ocasionalmente pintava materiais raros e composições suntuosas, aristocráticas, do tipo que Willem Kalf fazia em Amsterdã. Tem uma natureza-morta de 1648 no Hermitage e uma Natureza-morta com Presunto de 1656 em Budapeste.
E aí vem a frase: ele preferia as mesas de casas burguesas.
Preferia. Tinha a técnica para o luxo, tinha encomenda, e escolhia a mesa comum.
Eu não vou fingir que a enciclopédia explica por quê, porque ela não explica. Mas eu sei o que isso faz comigo, que escrevo sobre mesa posta todo dia e passo metade do tempo brigando com a ideia de que a mesa boa é a mesa cara.
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O homem que começou na bagunça e terminou na geometria
A trajetória do Pieter Claesz. é a parte que eu mais gostei, porque ela é uma pessoa aprendendo a arrumar a mesa.
No começo, ele seguia o estilo seco de Floris van Schooten, em que os objetos e as cores terrosas ou metálicas ficavam justapostos em desordem. É a palavra do livro: desordem.
Depois de 1630, talvez por influência do Heda — a enciclopédia escreve "talvez", e eu mantenho o talvez —, ele começou a integrar as formas mais de perto, a buscar uma unidade de impressão e a construir esquemas geométricos baseados na seção áurea.
Leia essa frase de novo. Um homem organizando os restos de um almoço segundo a proporção áurea.
A partir de 1640, os tons ficaram mais quentes, a tinta mais leve, a transparência maior, e o arranjo de linhas curvas e retas mais sutil. O exemplo que o livro dá é Almoço com Jarro de Estanho, de 1643, em Bruxelas.
Trinta anos para sair da desordem e chegar na curva certa ao lado da reta certa. Foi uma vida inteira resolvendo o mesmo problema que eu resolvo antes de um jantar, só que ele resolvia no quadro e com muito mais paciência.
O que é "monocromático" aqui, e por que isso importa para a sua mesa
Heda é celebrado, diz o livro, como pintor de naturezas-mortas "monocromáticas", e o efeito delas vem de refinamento de valores, meios-tons e veladuras transparentes sobre uma cor só.
Monocromático aqui não quer dizer sem graça. Quer dizer que ele tirou a cor da jogada para que outra coisa aparecesse: a diferença entre o brilho do estanho e o brilho do vidro, entre o branco do cachimbo e o branco da toalha.
O exemplo descrito é Natureza-morta com Tabaco, de 1637: os cinzas e verdes de uma zona de sombra, onde está um jarro de estanho, contra o bege-acinzentado de uma área luminosa, onde um cachimbo branco se destaca.
É uma mesa inteira construída em duas temperaturas de cinza.
E essa é a lição que eu levo para dezembro, que não é sobre pintura: uma mesa com pouca cor obriga você a reparar nos materiais. O vidro, o metal, o linho, a louça. Numa mesa cheia de cor, ninguém vê o copo. Já escrevi sobre o quanto um copo de cristal muda com a luz atrás dele em vez de do lado, e é a mesma ideia: tira uma variável, a outra aparece.
Uma honestidade sobre esta fonte
A enciclopédia não explica por que a sobra de uma refeição virou assunto digno de quadro.
Ela registra que virou. Dá os nomes, as datas, os museus, descreve as cores. Mas não diz o que os objetos significavam, nem por que aquilo vendia, nem o que o comprador via ali. O trabalho mais antigo do Heda se chama Vanitas e a enciclopédia não para para dizer o que uma vanitas é.
Então eu também não vou dizer. Tem muito texto por aí explicando esses quadros como sermões sobre a vida que passa, e pode ser que seja isso mesmo, mas não é o que este livro afirma, e eu prefiro te entregar o que ele afirma.
O que eu posso dizer com segurança é o que está escrito: dois homens, cinquenta anos, a mesa posta e a mesa desfeita, repetidas até virarem a coisa pela qual eles são lembrados.
O que eu vou fazer com isso
Fotografar a mesa depois.
Não só a mesa pronta, com tudo alinhado e ninguém sentado, que é a foto que todo mundo tira, inclusive eu. A de depois também: os guardanapos jogados, as taças pela metade, a vela já baixa.
Porque é essa que mostra que a mesa funcionou. A mesa posta é uma promessa. A mesa desfeita é o recibo.
E se dois holandeses conseguiram transformar isso em obra de museu, eu consigo parar de achar que a bagunça do fim da noite é um fracasso de produção.
Se você quiser o resto do que a gente está montando para a temporada, reuni tudo numa página, com um checklist da mesa para baixar.
E para a parte da mesa que aparece em todos esses quadros, dobrada do lado do prato: A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: você tira foto da mesa depois que todo mundo levanta? Eu nunca tirava, e agora quero ver como fica.
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