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Em 8 de novembro de 1291, Veneza expulsou os fornos de vidro da cidade
Mesa Posta
Publicado em 18 de setembro de 2026

Em 8 de novembro de 1291, Veneza expulsou os fornos de vidro da cidade

Em meados do século XIII, Veneza já era a cidade mais avançada do mundo em vidro. Em 1255 havia ali um sistema de guildas complexo, com especialistas em joia, garrafa, espelho, lente e vidraça.

E havia um problema.

"A quantidade prolífica de fornalhas que queimavam dia e noite nos galpões de vidro de madeira representava uma ameaça à vida dos cidadãos."

"Em 8 de novembro de 1291, o doge e o Grande Conselho proibiram as fornalhas de operar dentro da cidade, e os galpões de vidro foram transferidos para Murano, uma ilha vizinha a cerca de cinco quilômetros da cidade."

Duas notas de honestidade, logo de cara. O livro não usa a palavra "incêndio": ele diz fornalhas queimando dia e noite dentro de galpões de madeira, ameaçando a vida das pessoas. A leitura é óbvia, mas a palavra é minha. E todas as medidas em metro e centímetro deste post são conversão minha, porque o livro só dá milha e polegada.

O segredo veio depois, e como consequência

Essa parte quase todo mundo conta errado, inclusive eu contava.

A frase seguinte do livro é: "Essa mudança não apenas concentrou a indústria do vidro numa área só; ela também impediu o estabelecimento de galpões em outros lugares e garantiu o sigilo das novas técnicas."

Repare no verbo. Garantiu. É resultado, não motivo. O sigilo virou política depois, e endureceu ao longo de um século e meio.

Em 1376, o Senado veneziano elevou os vidreiros à condição de burgueses, cidadãos de Veneza, "para encorajar a lealdade entre os trabalhadores e compensá-los pela perda de liberdade". As filhas dos mestres ganharam o direito de casar com nobres, o que naquela sociedade era um privilégio enorme.

E em 1454, para manter o monopólio, Veneza decretou, sob o Artigo 26 dos Estatutos da Inquisição de Estado, que o vidreiro que emigrasse incorria em pena de morte.

O livro fecha o assunto com uma frase deliciosamente seca: "No entanto, os vidreiros sucumbiram ao apelo dos subornos." E foram embora assim mesmo, para a Holanda, Inglaterra, França, Alemanha, Boêmia, Áustria e Espanha.

Antes disso, o vidro era luxo. Um tubo mudou isso.

Em 50 a.C. foi inventado o canudo de sopro. A técnica, diz o livro, "acredita-se ter se desenvolvido em Sídon", então colônia síria de Roma. Repare que a data ele afirma e o lugar ele hesita, então eu faço igual.

E vem a avaliação mais forte do capítulo:

"O canudo de sopro é a invenção mais importante da história do vidro. Ele tirou o vidro do reino do luxo e tornou possível a produção em massa de formas utilitárias baratas para as pessoas comuns: garrafas, pratos, colheres, copos, frascos, potes de pomada, lamparinas e vasos."

Antes do sopro, o vidro era formado em volta de um núcleo, peça por peça. Depois do sopro, ele virou coisa de casa.

Ah, e o vidro em estado natural não é transparente. É esverdeado ou âmbar amarronzado, por causa do ferro e do alumínio que vêm junto. Em 2 d.C. artesãos romanos inventaram o crystallinum, descolorido com antimônio ou manganês, que ficou conhecido como "sabão de vidro" porque neutralizava as impurezas.

Alguém precisou inventar a transparência. Ela não veio de graça.

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A taça romana que muda de cor conforme a luz

Essa é a minha parte favorita do capítulo, e é a única coisa nele que eu vou usar em dezembro.

O cálice de Licurgo, feito no século IV d.C., está hoje no Museu Britânico. E o livro descreve:

"Iluminado de frente, o cálice de Licurgo é verde-oliva a verde-ervilha, mas quando iluminado por trás a cor é vermelho-vinho a roxo profundo", por causa de partículas minúsculas de ouro coloidal suspensas no vidro. "Dependendo da luz transmitida através das partículas, duas ou mais cores se tornam visíveis."

A mesma taça. Duas cores. A diferença é só de onde vem a luz.

Isso conversa direto com uma coisa que eu já tinha escrito sobre brilho: o brilho que parece caro é o brilho que a luz atravessa, não o que quica na superfície. O cálice de Licurgo é essa frase virando objeto.

E a inglaterra entra por causa de um erro

Em 1673, tentando achar um substituto para o cristallo veneziano, George Ravenscroft criou o flint glass. Deu errado: a composição desequilibrada produzia uma doença do vidro chamada crizzling, rachaduras finíssimas que levam à desintegração gradual da peça.

Em 1676 ele consertou trocando o flint por areia e usando óxido de chumbo como fundente. O resultado é o cristal de chumbo: mais claro, mais pesado e mais grosso que o cristallo.

E aí o livro dá o motivo pelo qual a Inglaterra dominou o vidro por mais de um século e meio: a propriedade refrativa do cristal de chumbo ajudou a ótica científica, e isso somado a "o brilho do cristal lapidado à mesa".

Tem uma sequência ainda melhor, e ela envolve imposto. Em 1745 a Inglaterra criou um imposto sobre o vidro calculado pelo peso. Os vidreiros então reduziram o chumbo para pesar menos, o que também reduziu a clareza, e "para compensar essa perda de brilho, os artesãos aumentaram a qualidade refrativa com ornamentação lapidada".

A taça lapidada existe porque um imposto tirou o chumbo dela. Eu adoro quando a decoração tem uma causa fiscal.

E então tudo virou barato

Em 1827 Enoch Robinson desenvolveu a prensa mecânica, chamada pelo livro de "a descoberta mais importante da fabricação de vidro desde o canudo de sopro". Ela triplicou a produção, e fazia duas peças por minuto praticamente sem acabamento manual.

O efeito na casa comum é uma data que eu não esqueço mais:

"Em 1850, a dona de casa média possuía um jogo de taças que continha copos feitos para o serviço de vinho branco, vinho tinto e vinho de sobremesa."

Três taças, em 1850. Repare no que não está na lista: não tem copo de água.

Quatro coisas práticas que eu tirei disso

Uma taça já resolve. Numa refeição simples, diz o livro, "normalmente se usa uma taça de vinho e talvez um copo de água". A profusão de cristal é coisa de jantar formal de muitos pratos, e nem lá é obrigatória.

Transparente para vinho, colorida para água. O motivo é ótimo: "o vinho branco parece pálido em taça de cor escura e o tinto ganha uma aparência barrenta". Se você tem aquelas taças coloridas lindas, use para água e deixe o vinho no vidro liso.

Segure pela haste, e o motivo não é etiqueta. Duas razões, as duas técnicas. A primeira: "assim como a alça da xícara protege os dedos do calor, a haste oferece um jeito de segurar bebidas frias sem esquentar o conteúdo do bojo". A segunda vem do capítulo de conservação: "A taça é feita de duas ou três peças. Segurar pelo bojo ou pelo pé pode criar tensão e fazer a parte se soltar." Não é modo à mesa. É engenharia.

Ponha a luz atrás do vidro. Essa é minha, e eu marco como minha: o livro não diz isso em lugar nenhum. Mas o cálice de Licurgo diz que a luz que atravessa faz uma coisa que a luz refletida não faz, e uma taça vazia com uma vela atrás dela vira cor. Com um cuidado que o livro realmente dá, no capítulo de conservação: mantenha o calor da chama longe do cristal, e não deixe a vela queimar até menos de 7,5 centímetros do topo do castiçal.

O que fica

O jogo de taças na sua estante começou como um problema de segurança pública em 1291, virou monopólio de estado, escapou por suborno, foi consertado por engano em 1676, foi lapidado por causa de um imposto de 1745 e barateado por uma prensa de 1827.

Ninguém planejou isso. E ainda assim o objeto que chegou até a sua mesa faz uma coisa muito simples: ele pega a luz da sala e devolve.

Se você quiser o resto do que a gente está montando para a temporada, reuni tudo numa página só.

E se você quer o item da mesa que dá o mesmo tipo de altura e capricho sem custar nada: A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo. R$ 47,00, acesso vitalício.

Me conta: você tem taça guardada que nunca usa? Aqui são seis, herdadas, que eu vou tirar do armário este ano.

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