
O glitter moderno saiu de um erro cometido por um criador de gado em 1934
O método de produzir as partículas do glitter moderno foi, nas palavras do livro, "um erro."
Henry Ruschmann era mecânico e criador de gado em Nova Jersey. Em 1934 ele esbarrou num jeito de cortar plástico colorido que produzia fragmentos minúsculos e brilhantes. Não sabia o que tinha criado, mas percebeu que era alguma coisa. Fundou uma empresa familiar para proteger a descoberta, a Meadowbrook Inventions — que existe até hoje, no terreno da fazenda de gado original, e continua sendo a maior fabricante de glitter do mundo.
O slogan da empresa, que eu acho perfeito: "nosso glitter cobre o mundo."
Dezembro é o mês em que uma casa brasileira fica deliberadamente coberta de brilho. A árvore, a taça, o fio na toalha, o rosto. Vale entender o que essa coisa é.
O brilho é mais velho que quase tudo
Antes do plástico, o brilho era mineral.
Desde o Paleolítico, a mica era usada em pintura rupestre para fazer as imagens cintilarem.
Repare no tamanho disso. Antes de escrita, antes de roda, alguém já estava misturando pó brilhante numa parede porque a parede ficava mais bonita quando a luz batia.
E o nome guarda a intenção: mica vem provavelmente do latim micare, "faiscar."
O detalhe que reorganiza a linha do tempo
Uma frase do livro que eu reli três vezes:
"Com a exceção da produção industrial de glitter sintético em 1934, os principais desenvolvimentos em maquiagem aconteceram todos nos últimos vinte anos."
Ou seja: quase tudo que existe hoje em brilho é recentíssimo. E no meio dessa lista curta, um evento isolado, de 1934, feito por engano numa fazenda.
Como o brilho antigo era feito
Aqui a resposta é bizarra e verdadeira.
"Classicamente, a maquiagem perolada era produzida usando mica natural, assim como escamas de peixe."
Escama de peixe. O livro não explica a química nem diz de que peixe, e eu não vou inventar.
Esse efeito perolado ficou popular pela primeira vez nos anos sessenta, e o próprio livro admite que "o material disponível então era todo bastante rudimentar."
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Por que o brilho barato parece barato
Essa é a parte técnica, e ela vale para tudo que você vai pôr numa mesa em dezembro, não só para o rosto.
A pérola antiga tinha "partículas metálicas grandes e irregulares que simplesmente ficavam pousadas em cima da pele."
Pousadas em cima. Essa é a definição de brilho barato.
As pérolas sintéticas modernas são menores e mais uniformes, e têm "a propriedade crucial da transparência." E é essa a virada: "é a qualidade da transparência que permite que a luz atravesse a pérola."
Atravessar, não bater e voltar.
Depois vieram as pérolas de vidro borossilicato, revestidas de pigmento, em que "o poder de reflexão é aumentado, permitindo mudanças de cor usando o prisma natural da luz." E no extremo, as pérolas espelho: a partícula de vidro é revestida de pigmento metálico de prata ou ouro "para que aja como um espelho."
A imagem que o livro usa, e que eu vou roubar para sempre: "pense num lustre quando o sol bate nele — o princípio e o efeito são os mesmos."
A regra que sai daí
Aqui está a coisa mais útil deste post, e ela não é sobre maquiagem.
Brilho parece caro quando a luz atravessa. Parece barato quando a luz só bate em cima.
Isso explica coisas que eu nunca tinha ligado uma na outra:
Por que uma taça de vidro simples numa mesa à luz de vela rende mais que um enfeite metalizado. O vidro deixa a luz passar; o metalizado devolve tudo de uma vez, num ponto só, e vira flash.
Por que um pouco de brilho acetinado num rosto some bonito e um brilho grosso vira purpurina de festa infantil. Mesma física, escalas diferentes.
Por que fio de metal fino num tecido funciona e paetê grande estoura na foto.
Uma só pergunta, para qualquer coisa brilhante que você for comprar em dezembro: a luz atravessa isso, ou só quica?
Onde vai cada tipo
O livro é específico e eu achei útil.
Pérolas sintéticas de acabamento acetinado bem fino vão para iluminador, blush e base. É o brilho que não se lê como brilho, se lê como pele boa.
Pérolas espelho vão para batom, sombra e delineador. Ali o efeito é o objetivo.
Uma frase que dimensiona a indústria: segundo a chefe dos laboratórios da L'Oréal Luxe, "a L'Oréal tem vinte pigmentos e mais de mil pérolas."
Vinte cores. Mil maneiras de refletir luz. A indústria inteira de maquiagem está muito mais interessada em luz do que em cor.
De onde a tecnologia veio, e isso me surpreendeu
O brilho da sua sombra veio de carro.
O pigmento perolado em cosmético "foi inspirado pela tecnologia da indústria automobilística — de fato, a tinta para pigmentos perolados ainda vem de fabricantes de carro." E a tinta de carro "foi revolucionada nos anos oitenta."
Existe uma linha reta entre a lataria de um carro dos anos 80 e o seu iluminador.
Por que quase nada é natural
Uma nota que eu achei honesta e nada romântica.
Os pigmentos são sintéticos porque "os pigmentos naturais são tão imprevisíveis: podem mudar de cor ou estragar."
Os óxidos de ferro sobreviveram, em versão sintética — e o livro fecha com uma frase que eu gostei: "de certa forma estamos voltando exatamente à maquiagem do antigo Egito."
Duas coisas que o livro não diz
Preciso registrar, porque a tentação de completar a história é grande.
Ele não diz o que Ruschmann estava tentando fazer quando errou, nem que problema ele estava resolvendo. Não tem a cena. Eu queria muito que tivesse.
E ele não liga nada disso a Natal, a enfeite de árvore ou a decoração. Essa ponte é minha, não do livro.
O que eu vou fazer com isso
Na mesa: vidro, cristal, prata velha, água. Coisas que a luz atravessa ou que a luz percorre. Menos coisa metalizada de uma cor só.
No rosto: acetinado fino nas partes altas, e o brilho forte reservado para um lugar só.
E uma tranquilidade nova sobre a origem de tudo. O brilho da sua ceia começou com um homem que criava gado e errou uma máquina. Não precisa ser tão sério.
Se você quiser o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, está tudo reunido aqui. E sobre por que a luz da sala decide o que existe no seu rosto, escrevi um post inteiro sobre isso.
Se essa parte de mesa te interessa mais que a de rosto, eu montei um curso de dobradura de guardanapos — a dobra é o jeito mais barato de fazer uma superfície reagir à luz. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: você é time brilho ou time fosco na ceia? Eu era fosco por convicção e mudei de lado depois de ler sobre lustre.
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