
Num pudim, as proteínas de um ovo precisam segurar 20 colheres de líquido. Num ovo mexido, três.
Eu fui atrás de por que pudim fura e encontrei uma frase que explica tudo, com um ponto de exclamação do próprio autor:
"E porque a rede de proteína está esticada dentro de um volume tão grande — num pudim, as proteínas de um único ovo precisam abraçar não três colheres de sopa de líquido, mas 18 ou 20! — o coágulo é muito mais delicado, e facilmente rompido por aquecimento excessivo."
Três colheres num ovo mexido. Dezoito ou vinte num pudim.
O mesmo ovo. Seis vezes mais trabalho.
A escada, e onde cada coisa endurece
Primeiro o ovo sozinho, sem nada misturado. Cada parte dele tem uma temperatura própria:
- A clara começa a engrossar a 63 °C e vira sólido macio aos 66.
- A gema começa a engrossar aos 66 °C e firma aos 70.
- O ovo inteiro, gema e clara misturadas, firma perto dos 74 °C.
- Aos 82 °C, a ovalbumina coagula e "a clara macia fica muito mais firme".
- O teto de tudo é a fervura, 100 °C.
E a regra que governa o capítulo inteiro: "pratos com ovo devem ser cozidos apenas até a temperatura em que suas proteínas coagulam, que é sempre bem abaixo do ponto de ebulição."
Uma nota técnica que eu devo, e que é chata mas importa. Os valores em Celsius deste post são conversão minha, feita a partir dos números em Fahrenheit do livro. Fiz assim porque, acima de uns 80 graus, os arredondamentos em Celsius impressos no livro ficam de 2 a 4 graus abaixo do valor real das temperaturas em Fahrenheit dele. Quem cozinha em Celsius e copiar a coluna errada mira baixo. Preferi refazer a conta.
Por que o pudim endurece mais tarde
Porque tudo que você mistura no ovo atrapalha as proteínas de se encontrarem.
O leite dilui. O açúcar dilui e faz mais: "Uma colher de sopa de açúcar cerca cada molécula de proteína, num prato de um ovo, com uma tela de vários milhares de moléculas de sacarose."
Uma tela de açúcar em volta de cada proteína. Elas precisam de mais calor para se achar.
O resultado, com número: um pudim de uma xícara de leite, uma colher de açúcar e um ovo "começa a engrossar não aos 71 °C, mas aos 79 ou 82."
E a faixa geral: "a temperatura de coagulação num pudim fica entre 5 e 11 graus acima da do ovo puro, entre 79 e 85 °C."
E aqui está o furo
Essa é a frase que eu vim procurar:
"Ultrapasse a faixa de coagulação em apenas 3 a 6 graus e a rede começa a colapsar, formando túneis cheios de água no pudim, e grumos granulados no creme."
Túneis cheios de água. É esse o nome técnico dos furinhos.
Não é ar. Não é fermento. Não é a receita. É a rede de proteína, que estava esticada até o limite segurando vinte colheres de líquido, se rompendo e soltando a água que ela segurava.
E a margem é de três graus.
Três graus entre o pudim liso e o pudim furado. É por isso que ele parece caprichoso: ele não é caprichoso, ele é apertado.
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As cinco coisas que dão essa margem de volta
Calor baixo, sempre. O livro tem uma imagem que eu vou usar para o resto da vida: "Aumentar o fogo é como acelerar numa estrada molhada enquanto você procura uma entrada que não conhece. Você chega mais rápido, mas pode não conseguir frear a tempo." E completa: coagulação tem inércia, "não para no segundo em que você desliga o fogo."
Quente no frio, nunca frio no quente. Você esquenta o leite e joga o leite quente no ovo, mexendo. Isso leva o ovo "gentilmente mas rápido até 60 ou 66 °C, só uns 17 a 22 graus abaixo da temperatura de firmar". Ao contrário, "adicionar ovos frios ao leite quente aqueceria imediatamente os primeiros fios de ovo perto da fervura e causaria coagulação prematura."
Banho-maria, com dois detalhes que eu fazia errado. O primeiro: "É um erro cobrir o banho-maria inteiro, porque isso força a água à fervura." Cubra as forminhas, não a assadeira.
O segundo é um mito desmontado. Muita gente põe um pano de prato no fundo da assadeira. O livro: "isso pode sair pela culatra: o pano impede a água de circular por baixo das forminhas, então a água presa ali chega à fervura e balança as forminhas. Uma grade funciona melhor."
E um piso: a água precisa chegar a pelo menos 85 °C, "senão a mistura pode nunca firmar completamente."
Tire do forno mole. "É melhor tirar do forno enquanto o centro ainda está um pouco mole e tremendo. As proteínas continuam a firmar um pouco com o calor residual, e o pudim vai de qualquer forma ficar mais firme depois de esfriar até a temperatura de servir." O teste é dar um esbarrão na forma: o conteúdo deve se mover devagar.
Esfriar é parte da receita, não espera. "Esfriar firma géis de proteína." O pudim não fica pronto no forno. Ele fica pronto na geladeira.
Uma pitada de sal, e o motivo é ótimo
Essa eu não sabia:
"Misture um ovo com uma xícara de água pura e você tem ovo talhado boiando na água; inclua uma pitada de sal e você tem um gel coeso."
A mesma quantidade de ovo, a mesma quantidade de água. A diferença é sal.
Os íons positivos funcionam como escudo entre as proteínas, e é por isso que qualquer líquido com minerais dissolvidos serve para fazer um creme, e água pura não serve.
E de quebra, um mito derrubado: "Não há verdade no ditado comum de que acidez e sal 'endurecem' as proteínas do ovo." O que eles fazem é o contrário: fazem o ovo coagular a uma temperatura mais baixa, e com textura mais macia.
O pudim de caramelo, com o passo que ninguém conta
O livro descreve exatamente a peça:
"O crème caramel é um pudim doce que se sustenta sozinho, com uma camada de caramelo úmido por cima. É feito revestindo o fundo da forma com uma camada de açúcar caramelizado antes de a mistura ser despejada e cozida. O caramelo endurece e gruda na forma, mas a umidade da mistura o amolece, e as duas camadas ficam parcialmente integradas."
E aí vem o detalhe prático que salva a sobremesa:
"O pudim é desenformado ainda morno, com o caramelo mole. Se ele precisar ir para a geladeira antes de servir, deixe dentro da forma; o caramelo pode ser amolecido de novo colocando a forma numa panela rasa de água quente por um minuto ou dois antes de desenformar."
Um ou dois minutos de água quente por baixo. É isso que resolve o pudim que não sai.
E a proporção, para o pudim que precisa se sustentar de pé fora da forma: pelo menos três gemas por xícara de líquido. Trocar leite por creme reduz o número de ovos necessário, porque creme "contém de 20 a 40% menos água."
Uma coisa que este livro não tem
Ele não fala de leite condensado. Em lugar nenhum do capítulo.
O pudim brasileiro clássico é feito com leite condensado, e este livro, que tem cinquenta páginas sobre ovo, não diz uma linha sobre o que o leite condensado faz com a temperatura de coagulação. Também não tem rabanada, nem nada sobre pão embebido em ovo.
Registro por honestidade. A física de proteína vale igual. Os números exatos de uma receita com leite condensado não estão aqui, e eu não vou estimar.
Duas notas de história que eu adorei
Crème brûlée não era assado. "Desde a sua invenção no século XVII até o começo do XX, o crème brûlée era um creme mexido, preparado no fogão fazendo um crème anglaise, despejando em forminhas e caramelizando a cobertura de açúcar com uma placa de metal em brasa, ou 'salamandra'."
Uma placa de metal em brasa encostada no açúcar. Trezentos anos antes do maçarico.
E "pudim" tem parente na padaria. A palavra inglesa custard "começou como croustade na época medieval, e significava pratos servidos numa crosta." E flan "vem do latim tardio para 'bolo achatado'."
O creme, no começo, era o recheio. A crosta é que dava nome.
O que eu levo para dezembro
Que o pudim não é uma receita difícil. É uma receita apertada.
Três graus de margem, uma rede de proteína segurando vinte vezes o próprio peso, e uma sobremesa que só termina de ficar pronta depois de fria.
Se você quiser a outra metade da física de sobremesa, a escada de temperatura do açúcar segue exatamente a mesma lógica, em degraus. Ovo e açúcar são as duas coisas na cozinha que mudam de estado por número, e não por tempo.
E se você quiser o resto do que a gente está montando para a temporada, reuni tudo numa página só.
Se a sua mesa vai ter pudim passando de mão em mão: A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo, e é o detalhe mais barato que existe. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: o seu pudim fura? O meu furava sempre, e agora eu sei que era o forno alto e não a receita da minha mãe.
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