
No século XVII, os confeiteiros da corte montavam mesas inteiras de açúcar
Eu abri um livro de ciência da cozinha atrás de uma explicação sobre caramelo e encontrei isto:
"No século XVII, os confeiteiros da corte estavam fazendo serviços de mesa inteiros e decorações enormes de açúcar."
Serviços de mesa inteiros. De açúcar.
Não é o único registro. Sobre a Itália do mesmo século, o livro diz que "várias decorações de banquete, incluindo pratos, eram feitas de açúcar". E a escultura em açúcar é bem mais antiga que isso: "existem registros de um banquete do século X no Egito que foi adornado com modelos de árvores, animais e castelos feitos de açúcar."
O ponto de exclamação no fim daquela frase é do autor, não meu. Ele também se impressionou.
Antes de ser sobremesa, açúcar era matéria-prima
E antes disso ainda, era remédio.
"A Europa mal conhecia o que hoje consideramos açúcar comum de mesa até cerca de 1100, e ele foi um luxo até 1700."
Os doces europeus começaram como "confecções", do latim conficere, "juntar", "preparar", montadas por boticários para equilibrar os humores do corpo. O livro registra que alguns desses doces medicinais continuam populares até hoje: pastilhas, drops e confeitos.
E o primeiro doce europeu não medicinal tem uma data e duas hesitações que eu vou manter inteiras: "acredita-se que a primeira confecção não médica na Europa pode ter sido feita por volta de 1200 por um boticário francês que cobriu amêndoas com açúcar."
Acredita-se. Pode ter sido. É como está no livro.
O momento em que a coisa vira arte
"Nos séculos XV e XVI, a confeitaria tornou-se mais uma arte, feita com maior sofisticação e destinada cada vez mais a encantar o olho. O açúcar derretido passou a ser fiado em fios delicados e puxado para desenvolver um brilho acetinado, e os confeiteiros começaram a desenvolver maneiras de determinar os diferentes estados de uma calda."
Repare na sequência. Primeiro vem a vontade de encantar o olho. Depois vem a necessidade de saber medir a calda. A técnica nasceu porque a decoração exigiu.
E tem um exemplo sobrevivente que eu achei genial e meio maluco. Uma receita francesa do século XVII chamada "Fatias de Presunto": cozinhe o açúcar até o ponto de pluma, divida em três recipientes, tinja um de branco e dois de vermelho, e faça camadas alternadas "até que o açúcar tenha a espessura de um presunto, e corte-o em fatias na forma de uma fatia de presunto."
Um presunto de açúcar, fatiado. No meio da mesa. Em 1600 e alguma coisa.
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Uma coisa que eu procurei e não encontrei
O livro nunca diz se alguém comia aquilo.
Ele descreve a mesa de açúcar, os pratos de açúcar, o presunto de açúcar, os castelos de açúcar do Egito, e em nenhum momento conta a reação de quem estava sentado, se aquilo era comido, guardado ou destruído, nem nomeia um confeiteiro, uma corte ou um banquete específico.
Se você ler em algum lugar a cena do convidado quebrando o castelo, não veio deste livro, e eu não vou inventar.
A escada de temperatura, que é a parte útil
Aqui está o motivo de tudo isso existir, e é a coisa mais aplicável que eu li no ano.
Açúcar não muda de estado devagar. Ele muda em degraus, e cada degrau tem um número. O livro traz a tabela inteira:
- Fio, 102 a 113 °C. Caldas e compotas.
- Bola mole, 113 a 116 °C. Fondant e fudge.
- Bola firme, 118 a 121 °C. Balas de caramelo.
- Quebra mole, 132 a 143 °C. Puxa-puxa.
- Quebra dura, 149 a 154 °C. Butterscotch e crocante.
- 160 a 168 °C. Balas duras e toffee.
- 170 °C. Caramelo claro, para cor e sabor.
- 180 a 182 °C. Fio de açúcar e gaiolas de açúcar.
- 188 a 190 °C. Caramelo escuro.
- 205 °C. Caramelo preto.
Duas notas do próprio livro que valem ouro. Acima de 165 °C a calda tem mais de 99% de sacarose, para de ferver e começa a se decompor e caramelizar. E: para cada 305 metros acima do nível do mar, subtraia 1 °C de todos os pontos de ebulição da tabela.
Os confeiteiros do século XVII não tinham termômetro. Tinham dedo, água fria e uma escala descrita com quatro palavras. O livro é seco sobre isso: "Naquela época como hoje, o confeiteiro precisava de dedos resistentes."
O segredo do fudge cremoso é esperar
Essa é a informação que mais mudou a minha cabeça, e ela não tem nada a ver com a receita.
Calda quente forma poucos cristais grandes, e o resultado é arenoso. Calda fria forma muitos cristais pequenos, e o resultado é cremoso.
Então: cozinhe até 113 °C, e deixe esfriar até cerca de 43 °C antes de começar a mexer. Depois bata sem parar, por uns quinze minutos, até a cristalização terminar.
O erro clássico é mexer enquanto está quente, porque parece produtivo. É exatamente o oposto do que funciona.
Mais duas: colher de pau, não de metal, porque o metal tira calor num ponto só e cria uma região supersaturada demais. E uma diferença de 1 ou 2% de água já muda a textura de forma perceptível.
O número que explica "areia na boca"
"Nossa língua sente como arenosas as partículas maiores que cerca de 0,02 mm."
Vinte micrômetros. É a fronteira exata entre cremoso e arenoso, e é por isso que fudge é uma questão de temperatura e paciência, e não de qualidade de ingrediente.
Um dado vizinho, que explica por que caramelo queima quando a gente não espera: a frutose caramela a 105 °C, a glicose por volta de 150 °C, e a sacarose derrete perto de 160 °C e só caramela por volta de 170 °C. Se a sua receita tem mel ou frutas, tem frutose, e ela escurece muito antes do açúcar comum.
Duas etimologias que eu não sabia
Açúcar vem, pelo árabe, do sânscrito sharkara, que quer dizer cascalho, pedacinhos de material.
E candy, o doce em inglês, vem do sânscrito khandakah, que era o nome do próprio açúcar.
O nome do açúcar é o nome de uma pedrinha. Faz todo sentido para uma coisa que dá para esculpir.
O que eu tiro disso para a mesa de dezembro
Que a decoração comestível não é um enfeite moderno de Instagram. Ela é a coisa mais antiga que existe nessa história, e por séculos foi a parte mais cara e mais admirada da mesa.
A diferença é que hoje ela custa quase nada. Uma panela, um termômetro de cozinha e açúcar comum fazem fio de açúcar a 180 °C. É a mesma técnica de quinhentos anos atrás, e sai por três reais.
Sobre por que o doce é que fecha a refeição e não abre, já escrevi um post inteiro, e a resposta é evolutiva e nada gastronômica. Este aqui é sobre o que o doce vira quando para de ser comida e vira objeto.
E se você quiser o resto do que a gente está montando para a temporada, reuni tudo numa página só.
Se a sua mesa vai ter doce passando de mão em mão, o guardanapo dobrado resolve metade da bagunça: A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: você já fez fio de açúcar em casa? Eu fiz uma vez, queimei tudo, e agora sei que era temperatura e não falta de talento.
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