
Em 1301 passou o cometa Halley. Giotto pintou o cometa no lugar da estrela de Belém.
Em 1301 o cometa Halley fez uma de suas raras aparições. O livro que eu estava lendo registra o que veio depois em duas frases:
"Muitos viram aquilo como mau presságio, mas Giotto incorporou o cometa ao afresco da Adoração dos Magos na Capela da Arena. No lugar da tradicional estrela de Belém, ele pinta um cometa flamejante."
Repare que o livro não hesita. Não escreve "acredita-se que", não põe "possivelmente". Afirma.
E repare no que a frase não diz, porque eu quase escrevi o contrário: ela não diz que Giotto viu o cometa. Diz que ele o incorporou. Se ele estava em Pádua com a cabeça para cima naquela noite, o livro não conta, e eu não vou inventar.
Por que isso é grande
Porque a estrela de Belém é um símbolo. Está lá para ser lida, não para ser olhada.
E o cometa é uma coisa que atravessou o céu de gente viva, e que assustou essa gente. Trocar um pelo outro é trocar o esperado por o observado.
Isso é exatamente o que o capítulo inteiro está contando. A arte bizantina era "propositalmente misteriosa e distante do mundo real da humanidade", e Giotto e os contemporâneos dele "começaram a contar a história cristã em termos reais e humanos".
Os afrescos da Capela da Arena são datados de cerca de 1303 a 1306, e ficam em Pádua. Uma honestidade que eu devo: o livro dá essa data para o ciclo inteiro, não especificamente para a Adoração. Juntar as duas coisas é conta minha.
O método, que é o motivo do estilo
Tem uma explicação técnica ótima para por que Giotto pinta daquele jeito, sólido e simples.
A força do trabalho dele "é em parte função da técnica do afresco, que envolvia trabalhar de forma metódica e rápida em seções de parede preparadas diariamente com gesso úmido".
Gesso úmido, preparado por dia. A parede seca. Você tem um dia, e o que você não terminou hoje já não pega mais tinta.
Nada de refazer, nada de camada por cima. A monumentalidade é filha do relógio.
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Um detalhe que o livro conta e que muda o clima
O ciclo tem dono, e o dono tinha um motivo.
"Numa tentativa de expiar os crimes de usura do pai, por volta de 1303 Enrico Scrovegni encomenda a Giotto o ciclo narrativo de afrescos da Capela da Arena, em Pádua."
Quinze palavras de motivo, e é o único motivo de encomendador que o capítulo inteiro oferece.
Segunda honestidade: o livro nunca liga essa encomenda ao cometa. As duas informações estão em páginas diferentes e ele não as cruza. A Adoração faz parte do ciclo, então a ligação parece óbvia, mas ela é minha, não dele.
Cento e vinte anos depois, a outra Adoração
Em 1423, Gentile da Fabriano pinta outra Adoração dos Magos. Está hoje na Uffizi.
E aqui o livro é desarmante de tão franco:
"Pintado para um dos cidadãos mais ricos de Florença, Palla Strozzi, este espetacular retábulo é uma obra-prima do estilo gótico internacional. Ele exibe uma elegância cortesã concebida para sublinhar a própria riqueza e posição de Strozzi."
Concebida para sublinhar a riqueza de quem pagou. Escrito assim, sem rodeio, numa legenda de livro de arte.
Os Magos aparecem "vestidos com trajes esplendidamente luxuosos". A moldura é "magnificamente ornamentada". E a predela, aquela faixa de imagens pequenas embaixo do painel principal, tem uma cena noturna com um tratamento de luz que o livro chama de notável.
Uma coisa que o livro não diz, e que eu queria: onde o retábulo ficava pendurado, quem o via, e se Strozzi está pintado dentro dele. Nada disso está no texto. Não vou completar.
As duas coisas são verdade ao mesmo tempo
E é por isso que este post existe.
A mesma cena, os mesmos Reis Magos, duas encomendas. Numa delas um pintor troca o símbolo consagrado por uma coisa que passou no céu de verdade. Na outra, a beleza toda serve, entre outras funções, para dizer quanto o dono tinha.
Não é que uma seja pura e a outra corrupta. São as duas metades de qualquer coisa bonita que alguém monta para os outros verem.
A mesa de dezembro é igual. Ela é afeto e é vitrine, e fingir que é só a primeira coisa é mentira boba. Sobre como a luz resolve isso no quadro, tem um post inteiro sobre a Natividade ser sempre cena noturna e o Menino ser a fonte de luz.
Duas notas de rodapé que eu adorei
Giotto foi o primeiro artista desde a Antiguidade a virar um nome famoso. Dante, Boccaccio e Petrarca elogiaram ele. Em 1308 Dante começa a Divina Comédia e nela demonstra "grande admiração pelo naturalismo de Giotto".
E em 1311 tem uma cena que eu queria ter visto: em 9 de junho, o retábulo Maestà, de Duccio, foi "levado em procissão triunfal ao som dos sinos das igrejas, do ateliê do artista até a catedral de Siena".
Um objeto feito por encomenda, carregado pela cidade, com sino tocando. A entrega mais elegante da história.
O que eu tiro disso para a mesa
Uma coisa só, e é a do cometa.
Todo mundo já sabe o repertório: o vermelho, o dourado, o pinheiro, a estrela. É repertório bom, funciona, e eu uso.
Mas o que faz uma mesa ser sua é o item que ninguém esperava ali. A fruta da estação em vez da bola. O castiçal errado. A jarra que só existe na sua casa.
Giotto não jogou a Adoração fora. Ele deixou tudo no lugar e trocou um elemento, o mais alto e mais visível, por uma coisa que ele conhecia do mundo real.
Se você quiser o resto do que a gente está montando para a temporada, reuni tudo numa página só.
E se a sua mesa vai ter travessas passando de mão em mão: o guardanapo dobrado é o detalhe mais barato que existe. A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta qual é o seu cometa: o item fora do repertório que aparece todo ano na sua mesa. Aqui é uma vaca de cerâmica que não tem nada a ver com nada.
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