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Em 1969 recortaram uma Natividade de Caravaggio de uma igreja em Palermo. Ela nunca voltou.
Arte
Publicado em 26 de agosto de 2026

Em 1969 recortaram uma Natividade de Caravaggio de uma igreja em Palermo. Ela nunca voltou.

Eu fui procurar uma coisa boba, qual seria o quadro de Natal mais bonito, e caí num caso de polícia.

A Natividade de Caravaggio é de 1609. Em 1969 ela foi roubada de uma igreja em Palermo, na Sicília. Segundo os livros de arte que eu tenho aqui, nunca foi recuperada.

Isso me fez parar e olhar de outro jeito para um assunto que eu achava que era só bonitinho.

O problema técnico que ninguém comenta

Aqui está a coisa que eu não tinha percebido em trinta e poucos anos de olhar essas imagens.

A cena da Natividade acontece de noite. É uma cena noturna, num lugar sem janela decente, antes de qualquer forma de iluminação que a gente reconheceria.

Ou seja, todo pintor que aceitou essa encomenda aceitou junto um problema técnico difícil: pintar uma coisa que ninguém consegue ver direito.

E a solução que a maioria adotou é elegante e estranha: nas Natividades, quem ilumina a cena é frequentemente o próprio Menino. A luz não entra pela porta. Ela sai do meio do quadro.

Não é misticismo do pintor, é composição. Se a fonte de luz está no centro, todo mundo tem que se curvar na direção dela, e a pintura ganha um centro geométrico e um centro emocional no mesmo ponto. É uma decisão de desenho antes de ser qualquer outra coisa.

O holandês que ninguém conhece e inventou a coisa

Uma das pinturas independentes mais antigas do gênero na Europa do norte é de Geertgen tot Sint Jans, um pintor que morreu por volta de 1495, com uns vinte e oito anos segundo o cronista Karel van Mander.

A Natividade dele é minúscula, e é descrita como uma bela cena noturna, um estudo dos efeitos da luz artificial.

Um sujeito que viveu menos de trinta anos, no século XV, resolveu o problema fazendo do quadro um exercício sobre luz. Antes de existir palavra para isso.

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O especialista em inverno

Mudando de assunto sem mudar de estação: se você já viu uma cena de patinação no gelo com centenas de figurinhas pequenas, provavelmente viu um Avercamp.

Hendrick Avercamp foi batizado em Amsterdã em 25 de janeiro de 1585 e enterrado em Kampen em 15 de maio de 1634. Passou quase a vida inteira numa cidade pequena da província.

Ele foi o primeiro pintor holandês a se especializar em paisagens de inverno, e o tipo virou popularíssimo. O trabalho dele combina observação sensível da natureza com uma multidão de figuras pequenas e muito vivas.

Duas coisas sobre ele que eu não consigo tirar da cabeça:

Ele era surdo e mudo, e ficou conhecido como de Stomme van Kampen, o mudo de Kampen.

E ele era um desenhista tão bom que vendia desenhos coloridos como obras acabadas, num tempo em que desenho costumava ser só estudo para outra coisa.

O sobrinho dele, Barent Avercamp, que viveu de 1612 a 1679, passou a carreira imitando o estilo do tio.

O pintor que a luz de vela salvou do esquecimento

Georges de La Tour trabalhou a vida toda na Lorena, que era um ducado independente até a França invadir, em 1633.

Conhecem-se cerca de quarenta pinturas dele, e a descrição que os livros dão das mais características é esta: cenas noturnas meditativas iluminadas por vela ou por tocha.

Depois que morreu, foi rapidamente esquecido. Só foi redescoberto no início do século XX.

Hoje é geralmente considerado o maior de todos os seguidores de Caravaggio, e a diferença é que ele pegou a luz e a sombra do italiano e usou de um jeito próprio, contemplativo em vez de teatral.

Trezentos anos de esquecimento e depois esse veredito. Serve de consolo para várias coisas.

O quadro que não é noturno

E o meu fato favorito de toda essa pesquisa, porque ele desmonta o assunto inteiro.

A Ronda Noturna, de Rembrandt, de 1642, não é uma cena noturna.

O nome só apareceu no século XIX, quando o quadro já estava tão escurecido por camadas de verniz velho e sujo que parecia acontecer de noite. Ele foi limpo pouco depois da Segunda Guerra e reapareceu como uma cena de dia.

O título de verdade é uma frase burocrática enorme sobre a companhia de milícia do capitão Frans Banning Cocq.

Ou seja: durante mais de cem anos, o quadro mais famoso da pintura holandesa teve seu nome, sua fama e seu clima definidos por sujeira.

Como pé de página, uma frase de 1678: o ex-aluno de Rembrandt, Samuel van Hoogstraten, escreveu que a pintura fazia as outras do mesmo salão parecerem baralhos de cartas.

O que isso mudou em como eu olho

Passei a olhar essas imagens procurando a fonte de luz antes de procurar a cena.

É um jogo bobo e melhora tudo. Onde está a vela. O que ela alcança. O que ela deixou de fora de propósito. Numa Natividade, quase sempre, a resposta está no meio, e o resto do quadro está organizado em volta dela.

E vale para a sua sala em dezembro também: uma vela baixa no meio de uma mesa faz exatamente o que fazia num quadro de 1609. Puxa todo mundo para o centro e apaga o resto.

Se você quiser ver o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, juntei tudo numa página. E sobre olhar quadro procurando a decisão do pintor em vez do assunto, escrevi sobre os autorretratos de Rembrandt, que é o mesmo exercício.

Me conta: você tem algum quadro, gravura ou cartão de Natal que sua família repete todo ano? Aqui tem, e é feio, e ninguém deixa tirar.

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