
Em 1969 recortaram uma Natividade de Caravaggio de uma igreja em Palermo. Ela nunca voltou.
Eu fui procurar uma coisa boba, qual seria o quadro de Natal mais bonito, e caí num caso de polícia.
A Natividade de Caravaggio é de 1609. Em 1969 ela foi roubada de uma igreja em Palermo, na Sicília. Segundo os livros de arte que eu tenho aqui, nunca foi recuperada.
Isso me fez parar e olhar de outro jeito para um assunto que eu achava que era só bonitinho.
O problema técnico que ninguém comenta
Aqui está a coisa que eu não tinha percebido em trinta e poucos anos de olhar essas imagens.
A cena da Natividade acontece de noite. É uma cena noturna, num lugar sem janela decente, antes de qualquer forma de iluminação que a gente reconheceria.
Ou seja, todo pintor que aceitou essa encomenda aceitou junto um problema técnico difícil: pintar uma coisa que ninguém consegue ver direito.
E a solução que a maioria adotou é elegante e estranha: nas Natividades, quem ilumina a cena é frequentemente o próprio Menino. A luz não entra pela porta. Ela sai do meio do quadro.
Não é misticismo do pintor, é composição. Se a fonte de luz está no centro, todo mundo tem que se curvar na direção dela, e a pintura ganha um centro geométrico e um centro emocional no mesmo ponto. É uma decisão de desenho antes de ser qualquer outra coisa.
O holandês que ninguém conhece e inventou a coisa
Uma das pinturas independentes mais antigas do gênero na Europa do norte é de Geertgen tot Sint Jans, um pintor que morreu por volta de 1495, com uns vinte e oito anos segundo o cronista Karel van Mander.
A Natividade dele é minúscula, e é descrita como uma bela cena noturna, um estudo dos efeitos da luz artificial.
Um sujeito que viveu menos de trinta anos, no século XV, resolveu o problema fazendo do quadro um exercício sobre luz. Antes de existir palavra para isso.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
O especialista em inverno
Mudando de assunto sem mudar de estação: se você já viu uma cena de patinação no gelo com centenas de figurinhas pequenas, provavelmente viu um Avercamp.
Hendrick Avercamp foi batizado em Amsterdã em 25 de janeiro de 1585 e enterrado em Kampen em 15 de maio de 1634. Passou quase a vida inteira numa cidade pequena da província.
Ele foi o primeiro pintor holandês a se especializar em paisagens de inverno, e o tipo virou popularíssimo. O trabalho dele combina observação sensível da natureza com uma multidão de figuras pequenas e muito vivas.
Duas coisas sobre ele que eu não consigo tirar da cabeça:
Ele era surdo e mudo, e ficou conhecido como de Stomme van Kampen, o mudo de Kampen.
E ele era um desenhista tão bom que vendia desenhos coloridos como obras acabadas, num tempo em que desenho costumava ser só estudo para outra coisa.
O sobrinho dele, Barent Avercamp, que viveu de 1612 a 1679, passou a carreira imitando o estilo do tio.
O pintor que a luz de vela salvou do esquecimento
Georges de La Tour trabalhou a vida toda na Lorena, que era um ducado independente até a França invadir, em 1633.
Conhecem-se cerca de quarenta pinturas dele, e a descrição que os livros dão das mais características é esta: cenas noturnas meditativas iluminadas por vela ou por tocha.
Depois que morreu, foi rapidamente esquecido. Só foi redescoberto no início do século XX.
Hoje é geralmente considerado o maior de todos os seguidores de Caravaggio, e a diferença é que ele pegou a luz e a sombra do italiano e usou de um jeito próprio, contemplativo em vez de teatral.
Trezentos anos de esquecimento e depois esse veredito. Serve de consolo para várias coisas.
O quadro que não é noturno
E o meu fato favorito de toda essa pesquisa, porque ele desmonta o assunto inteiro.
A Ronda Noturna, de Rembrandt, de 1642, não é uma cena noturna.
O nome só apareceu no século XIX, quando o quadro já estava tão escurecido por camadas de verniz velho e sujo que parecia acontecer de noite. Ele foi limpo pouco depois da Segunda Guerra e reapareceu como uma cena de dia.
O título de verdade é uma frase burocrática enorme sobre a companhia de milícia do capitão Frans Banning Cocq.
Ou seja: durante mais de cem anos, o quadro mais famoso da pintura holandesa teve seu nome, sua fama e seu clima definidos por sujeira.
Como pé de página, uma frase de 1678: o ex-aluno de Rembrandt, Samuel van Hoogstraten, escreveu que a pintura fazia as outras do mesmo salão parecerem baralhos de cartas.
O que isso mudou em como eu olho
Passei a olhar essas imagens procurando a fonte de luz antes de procurar a cena.
É um jogo bobo e melhora tudo. Onde está a vela. O que ela alcança. O que ela deixou de fora de propósito. Numa Natividade, quase sempre, a resposta está no meio, e o resto do quadro está organizado em volta dela.
E vale para a sua sala em dezembro também: uma vela baixa no meio de uma mesa faz exatamente o que fazia num quadro de 1609. Puxa todo mundo para o centro e apaga o resto.
Se você quiser ver o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, juntei tudo numa página. E sobre olhar quadro procurando a decisão do pintor em vez do assunto, escrevi sobre os autorretratos de Rembrandt, que é o mesmo exercício.
Me conta: você tem algum quadro, gravura ou cartão de Natal que sua família repete todo ano? Aqui tem, e é feio, e ninguém deixa tirar.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Tudo o que importa numa mesa de Natal, em uma folha só. Para imprimir ou preencher no computador.
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
