
Em 1953 a Dior lançou o mesmo batom em dois corpos: um para a bolsa, outro para a penteadeira
Em 1953 a Dior lançou a primeira linha completa de batons da casa, a Rouge Dior. Nove mil unidades, em oito cores.
E lançou cada cor em dois corpos diferentes.
Um era para a penteadeira: um obelisco de plástico, que o livro descreve como "fabulosamente decadente", feito para ficar à mostra. O outro era para a bolsa: um estojo metálico, chique e simples.
Os dois recarregáveis. O batom era o mesmo. O que mudava era a casa dele.
Eu li isso e passei o resto da tarde olhando para as coisas em cima do meu aparador.
O que a Dior tinha entendido
Que um objeto que fica parado e um objeto que anda dentro de uma bolsa não são o mesmo objeto, mesmo quando o conteúdo é idêntico.
O que fica à mostra precisa ser bonito parado, de todos os ângulos, o dia inteiro, sem ninguém tocar nele. O que anda precisa ser liso, resistente, sem canto que engate no forro, e discreto o bastante para sair da bolsa no meio de um jantar sem virar assunto.
Duas engenharias, um batom.
Uma nota de honestidade antes de seguir: o livro não diz quem desenhou nenhum dos dois e não diz que a ideia foi inédita. Só registra que a Dior fez assim, e que existe no arquivo da casa uma versão de penteadeira em caixa própria, assinada à mão pelo próprio Christian Dior para uma cliente.
Antes de 1915, batom simplesmente não andava
Essa é a parte que eu não sabia.
O livro é direto: "não dava para transportar batom com segurança dentro da bolsa." Ele existia, mas ficava em casa.
Isso muda em torno de 1915, quando o batom passa a ser produzido em cartuchos de metal. E tem uma data exata: a Scovill Manufacturing Company, de Connecticut, produziu em outubro de 1915 o primeiro estojo tubular de batom, "com alavancas laterais que permitiam empurrar o batom para cima".
Alavanca lateral, não a rosquinha que a gente conhece. A rosca só é patenteada em 1923, e depois dela, diz o livro, "mais de cem outras variações" apareceram.
Então o batom levou oito anos para aprender a girar. Eu achei isso estranhamente reconfortante.
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O pó e a primeira vez que uma embalagem virou objeto de exibição
O pó compacto tem uma história parecida e ainda mais interessante.
Antes dele, a mulher carregava pó solto, "muitas vezes guardado numa caixinha ou escondido dentro de uma joia", ou improvisava um recipiente. O livro é honesto sobre o resultado: "não era ideal e derramar era um problema."
O compacto resolve isso e decola nos anos 1920. E aí vem a frase que fez este post existir:
"O fato de que as caixas de pó eram exibidas em público antes de qualquer outra coisa explica por que havia uma variedade tão grande de estilos disponíveis."
Leia de novo. A embalagem ficou bonita porque era a primeira coisa que saía. Ninguém via seu creme, ninguém via sua penteadeira, mas todo mundo via a caixinha que você abria na mesa.
O livro completa: "As mulheres adoravam mostrar seus compactos, e eles eram símbolo de status." E numa legenda: "o gesto glamouroso de retocar o batom com um belo compacto espelhado virou um gesto cultural importante."
Um número que dá vertigem
Em 1930 havia cerca de três mil tipos de pó facial à venda nos Estados Unidos.
Três mil.
O livro dá uma razão para o crescimento do pó, e não é a que eu esperava: "os avanços da tecnologia fizeram com que as empresas passassem a produzir mais tons", do rosa ao bege ao castanho. Cheiro também contava, e várias marcas lançaram pós perfumados com os próprios perfumes de sucesso da casa.
E logo depois, quase de passagem, o livro solta: "pense que os banheiros públicos femininos passaram a ser chamados eufemisticamente de 'powder rooms' no fim dos anos vinte."
Repare que ele não diz que uma coisa causou a outra. Põe as duas lado a lado e segue. Eu vou fazer o mesmo, porque a explicação que ele próprio dá para a popularidade do pó é outra, e seria desonesto trocar.
A guerra, e a prova de que a embalagem era mesmo o produto
Durante a Segunda Guerra, "a embalagem foi reduzida ao básico", e da Chanel à Coty todo mundo passou a usar papelão simples.
O detalhe que eu não vou esquecer: um pó da Bourjois saiu com um bilhete dentro explicando que não havia esponja por causa das restrições de guerra.
Depois da guerra a coisa volta com tudo, e nos anos 1950 os compactos decorados aparecem em todas as faixas de preço.
A Chanel foi ainda mais longe
Em 1954 a Chanel criou um batom cremoso dentro de um tubo retangular, "réplica exata do frasco do No. 5". E fez para ele um compartimento de couro dentro da bolsa 2.55, que existe até hoje.
Um objeto com endereço fixo dentro de outro objeto. É de uma precisão quase absurda, e é exatamente a mesma ideia da Dior: a forma vem do lugar.
A regra que eu tirei disso, e que não é sobre maquiagem
A mesma lógica organiza uma mesa.
Tem objeto que fica: o castiçal, a jarra, a peça que você olha todo dia sem usar. Ele é julgado parado, e por isso pode ser mais bonito que prático.
E tem objeto que circula: a travessa que passa de mão em mão, o bule, o pegador. Esse é julgado em movimento, e precisa ser resistente, com pega boa, sem alça que esquenta.
Quando a gente compra pensando só em "bonito", compra tudo como se fosse da primeira categoria. E aí a travessa linda queima a mão de quem passa.
A ideia de deixar as coisas simplesmente à mostra tem uma lógica própria, e eu escrevi um post inteiro sobre por que o objeto com história sobrevive a todos os outros. Aqui é o lado técnico da mesma coisa: onde a peça mora decide o formato dela.
O que eu vou fazer em dezembro
Duas listas, não uma.
Fica: o castiçal, a toalha, a jarra, a xícara que veio de viagem. Compradas pelo olho.
Circula: travessa, pegador, bule, guardanapo. Comprados pela mão.
E um retoque de batom com espelho na mesa, depois da sobremesa, sem pedir licença. Setenta anos de mulheres fizeram isso na frente de todo mundo e chamaram de gesto cultural.
Se você quiser o resto do que a gente está escrevendo para a temporada, reuni tudo numa página, com um checklist da mesa para baixar.
E já que o assunto é objeto que circula de mão em mão: o guardanapo dobrado é o mais barato deles. A Arte da Dobradura de Guardanapos tem as dobras clássicas passo a passo. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta: qual é o objeto que mora à mostra na sua casa e nunca é usado? Aqui é um bule branco que não serve chá desde 2019.
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