
No começo do século XIX, o turista que visitava a Pedra de Plymouth ganhava um martelo
No começo do século XIX, quem visitava a Pedra de Plymouth recebia um martelo, para poder levar um pedaço da pedra como lembrança.
Em 1880, o que restava dela teve que ser cercado dentro de um memorial.
O museu que guarda um desses fragmentos, com inscrição pintada, data a peça de 1830. As pessoas destruíram o monumento, uma lasca de cada vez, para levar para casa a prova de que estiveram lá.
Eu ri e depois olhei para a minha estante.
Existe uma classificação para isso
A historiadora Beverly Gordon, no livro dela de 1986, The Souvenir: Messenger of the Extraordinary, dividiu a lembrança de viagem em cinco tipos. Achei útil o suficiente para reproduzir inteira.
Pedaço-da-pedra. Elementos naturais, como pedras ou flores secas, ou pedaços de fato arrancados de alguma coisa histórica. É essa a categoria de Plymouth, e o livro que eu li chama esses objetos de "espólios muitas vezes mal obtidos."
Pictórico. Qualquer efêmero, cartão-postal ou pôster, que traga a imagem do lugar.
Simbólico. A representação de um ícone local, tipo um Coliseu em miniatura.
Marcador. Um objeto que poderia ter sido feito em qualquer lugar, como uma camiseta ou uma caneca, mas que vem impresso com o nome do lugar.
Produto local. Comida, roupa ou artesanato nativos de uma região, e idealmente feitos ali.
Passe os olhos pela sua casa com essa lista na mão. Eu fiz isso e a distribuição me surpreendeu: quase tudo que eu tenho é marcador, e quase tudo de que eu gosto é produto local.
E a caça à lembrança é antiga
Não é invenção do turismo moderno: "viajantes curiosos caçam lembranças desde os tempos antigos, originalmente objetos religiosos."
O impulso é o mesmo do martelo. Trazer para casa uma prova material de que alguma coisa aconteceu com você.
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Por que esse objeto sobrevive a todos os outros
Aqui está a frase que fez este post existir.
Os objetos sentimentais "representam histórias e não estilos, emoções e não estética", e por isso, diz o livro, "serão sempre os objetos mais atemporais que você possui."
Repare no mecanismo, que é bem simples: estilo tem data de validade e história não tem.
O livro dá até um número aproximado para a validade do estilo: dizem que o gosto por comida muda a cada sete anos, e o gosto por interiores, na estimativa dele, a cada três a oito anos.
Três a oito anos. É mais ou menos o tempo em que uma cor de parede que você amou começa a te incomodar. O objeto que veio com história não obedece a esse relógio, porque nunca esteve competindo nele.
E a definição do que é um objeto sentimental é boa: eles são "substitutos físicos das nossas memórias", e a gente os guarda "não porque são bonitos ou nos fazem parecer bem, mas porque nos comovem."
Isso começa cedo
Um dado que eu não esperava: "quando bebês, a gente começa a exibir sinais de apego a objetos."
O apego infantil é "bastante indiscriminado": serve qualquer coisa. Com a idade, ele passa a ser menos sobre posse e mais sobre sentimento.
Ou seja, a pessoa que guarda a jarra lascada da avó está fazendo, com precisão maior, exatamente a mesma coisa que fazia aos dois anos com um paninho.
A parte que me deu inveja: colecionar uma categoria
Essa é a ideia mais aplicável do livro inteiro para quem mora em apartamento pequeno.
Um colecionador escolheu uma categoria e só ela: xícaras pequenas, copos de água e xícaras de café, às centenas, compradas em viagem.
A razão é puramente prática, e o livro dá: são "geralmente acessíveis, e pequenas o bastante para caber numa bagagem de mão" — e variam enormemente de lugar para lugar.
Pensa no que isso resolve. Você deixa de comprar uma coisa aleatória em cada cidade e passa a comprar a mesma coisa em toda cidade. O resultado não é bagunça, é coleção. E cabe num armário.
Na mesa de dezembro isso é ouro: doze xícaras diferentes, cada uma de um lugar, é uma mesa que conta doze histórias sem nenhum enfeite comprado.
A honestidade sobre a lembrança comprada
O livro não é romântico e eu gostei disso.
No Grande Bazar de Istambul, "muitas das bugigangas foram fabricadas em outras partes da Ásia." E numa rua de souvenirs em Marselha, o autor conta "pelo menos cinco lojas vendendo exatamente as mesmas bolsas de palha e cerâmicas salpicadas."
Cinco lojas, o mesmo objeto. O marcador e o simbólico estão em colapso: eles prometem lugar e entregam catálogo.
O que resiste é o produto local de verdade e o pedaço-da-pedra que você mesma recolheu. Uma concha. Uma pedra. Uma folha prensada. Coisas que ninguém fabricou para você comprar.
E o presente, que é a categoria mais forte
Uma frase que eu vou usar em dezembro: "na escala de níveis de energia positiva que os objetos podem irradiar num cômodo, o presente está entre os mais altos."
E o conselho que vem junto vale para o mês inteiro: comprar ou fazer presentes no momento em que você encontra a coisa certa, em vez de esperar a data.
Isso é o contrário de como quase todo mundo faz em dezembro. A gente decide presentear e depois sai procurando o quê. A ordem inversa — achar primeiro, guardar, entregar quando chegar a hora — produz presente melhor e dezembro mais calmo.
Tem ainda uma variação que eu achei ótima: duas amigas que se presenteiam sempre dentro de uma mesma categoria fixa, uma delas "pedras que parecem comida", a outra "coisas em formato de molusco". Cada uma sabe o que procurar o ano inteiro. A compra deixa de ser uma emergência de dezembro e vira um radar ligado o tempo todo.
E uma defesa do presente que não combina com nada: vale guardar, porque deixa a sua casa um pouco menos parecida com um tema.
Duas coisas que o livro não diz
Registro por honestidade.
Ele não diz quem entregava os martelos em Plymouth, se aquilo era autorizado, nem quanto da pedra se perdeu. Só que existe um fragmento inscrito de 1830 numa coleção de museu.
E ele não fala de Natal, de Brasil, nem de mesa de ceia. A aplicação é minha.
O que eu vou fazer
Vou parar de tratar o objeto com história como algo que fica na estante e trazer três para a mesa de dezembro. A jarra, uma xícara que veio de viagem, e o castiçal que ganhei.
E vou anotar uma categoria para colecionar, porque a lista de compras que dura o ano inteiro me parece infinitamente melhor que a lista de compras que dura de 15 a 24 de dezembro.
Se você quiser o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, reuni tudo numa página, com um checklist da mesa para baixar. E sobre por que peça garimpada costuma valer mais que peça nova, tem um post inteiro sobre isso.
E se você quiser acrescentar uma coisa à mesa que não ocupa espaço nenhum, as dobras de guardanapo estão no curso. R$ 47,00, acesso vitalício.
Me conta qual é o objeto mais feio que você guarda por causa da história. Aqui é um cinzeiro de vidro que ninguém nunca usou para fumar.
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