
Por volta de 1500, uma nobre italiana juntou 454 receitas. Quase metade era de beleza.
Por volta de 1500, a nobre italiana Caterina Sforza reuniu uma coleção de receitas e experimentos chamada Gli Experimenti.
São 454 receitas no total. Sessenta e seis vêm classificadas como cosméticas.
Mas a acadêmica Jacqueline Spicer, que traduziu o manuscrito, aponta que o número real de receitas sobre beleza e cosméticos, "de deixar a pele limpa e sem manchas a tingir cabelo", é muito maior: 192.
Quase metade do caderno.
E ela não escreveu sozinha
Essa é a parte que me pegou.
O livro descreve Sforza como alguém que "estabeleceu uma das primeiras comunidades de beleza conhecidas, escrevendo e recebendo cartas de muitas fontes para discutir, trocar e coletar receitas."
Trocar receitas por carta. Com um monte de gente. Ao longo de anos.
O conteúdo, diz o livro, vem "das tradições da comunidade em volta de Sforza, além de conhecimento tirado da medicina clássica". Ou seja: metade rede social, metade Galeno.
Chamam o Gli Experimenti de "o primeiro livro de beleza que conseguimos confirmar definitivamente como sendo de autoria feminina."
Uma honestidade que eu devo, porque é grande: o livro não põe nota de rodapé nessa passagem. Os números 454, 66 e 192 aparecem sem fonte. Também não diz onde o manuscrito está, em que língua foi escrito, nem se ele chegou a ser impresso. Ele diz "reunida", não "publicada".
O que fez tudo isso circular
A tecnologia, e a data é boa.
"O primeiro sistema de impressão conhecido foi inventado na China por volta de 1041, mas foi a invenção da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg, na Alemanha, por volta de 1450, que anunciou uma mudança radical na troca de informação."
E o efeito na beleza é imediato e barato:
"Durante o Renascimento na Itália, emergiu uma cultura em que os cosméticos eram amplamente divulgados nas ruas, com livros de receitas vendidos pelo equivalente a 'um gole de vinho' — em outras palavras, eram extremamente baratos."
Um manual de beleza pelo preço de um gole de vinho, vendido na rua.
Depois vieram outros. The Secrets of Lady Isabella Cortese, de 1561, também assinado por uma mulher, foi tão bem que reimprimiu seis vezes, o que o livro lê como sinal de "um público faminto por essa miscelânea de conhecimento médico e cosmético reunida pela comunidade."
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A primeira revista feminina inglesa não falava de beleza
Essa foi a surpresa da leitura.
"A primeira revista dirigida especificamente a mulheres na Inglaterra foi The Ladies' Mercury, publicada pela primeira vez em 1693."
E o que tinha dentro? "Uma coluna de conselhos sobre amor e relacionamentos, escrita por homens."
Mil seiscentos e noventa e três. Homens dando conselho amoroso para mulheres numa revista. Algumas coisas envelhecem menos do que a gente gostaria.
Entre 1880 e 1900 aparecem "quase cinquenta novas revistas femininas", e elas instruíam as leitoras sobre como se vestir e se comportar.
E tem um caso que eu adorei: La Belle Assemblée, de 1806, uma das primeiras revistas de moda britânicas. O livro registra que ela "nunca discutiu cosméticos" — e que, mesmo assim, "suas ilustrações retratam mulheres que estão obviamente com rouge e batom, com bochechas coradas e lábios pequenos e escuros."
A revista não falava. As imagens falavam.
Essa tensão entre o que se pode dizer e o que se pode mostrar é velha. Em 1650 o Parlamento inglês chegou a tentar proibir o blush, e desistiu.
1909: dois fatos no mesmo ano
O primeiro é meio comovente de tão inconveniente.
A Vogue americana tinha uma coluna de beleza chamada On Her Dressing Table — "Na penteadeira dela". E para descobrir onde comprar os produtos citados, a leitora tinha que escrever para a revista, com um envelope selado e endereçado para si mesma.
Você lia sobre um pó. Escrevia uma carta. Esperava. Recebia de volta o endereço da loja.
E no mesmo ano de 1909, a Selfridges abriu na Oxford Street, em Londres, e se tornou "a primeira loja de departamentos britânica a expor cosméticos abertamente."
O livro põe os dois lado a lado e segue. Eu faço igual.
A frase de 1913 que eu vou guardar
A atriz Billie Burke escreveu uma coluna num jornal de Chicago entre junho de 1912 e janeiro de 1914, e boa parte dela era sobre tirar o estigma da maquiagem.
Uma das colunas dela diz:
"Recebo uma enxurrada de cartas perguntando se eu acredito em usar pó. Certamente acredito; toda atriz acredita... Todas as atrizes são artistas na 'maquiagem'; elas precisam ser. Mas a maquiagem para o palco e a maquiagem para as luzes da rua são muito diferentes."
Palco e rua. Duas maquiagens.
E o livro dá o pano de fundo técnico disso numa frase só: "Com os avanços da iluminação, da introdução do gás à luz de cal e aos primeiros teatros completamente iluminados por eletricidade, vieram os avanços necessários nos cosméticos de palco, para acompanhar."
Repare no que ele não diz: não nomeia um único produto, ingrediente ou técnica que tenha mudado. Só que a mudança teve que acontecer.
O que eu tiro disso
Que a receita sempre circulou.
Quinhentos anos de mulheres trocando fórmula por carta, comprando manual na rua por um gole de vinho, escrevendo para uma revista para saber onde comprar um pó, e lendo em imagens o que o texto não podia dizer.
O que a gente chama hoje de "comunidade de beleza" não é invenção de rede social. É o formato original, e ele voltou.
Isso tem uma aplicação bem concreta em dezembro, e é a única que eu vou dar: peça a receita. A da sua sogra, a da vizinha, a da tia que faz aquilo. Escreva num papel. Guarde.
O caderno de Caterina Sforza sobreviveu quinhentos anos porque alguém teve o trabalho de anotar o que as outras contaram.
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Me conta qual receita de família você tem anotada em algum lugar. Aqui é um bilhete com a letra da minha avó, com quantidade errada e tudo.
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