
Entre as paredes soterradas em Pompeia, no ano 79, existe uma natureza-morta de limões e um copo d'água
Entre as pinturas de parede soterradas pelo Vesúvio em 79 d.C., em Pompeia, existem naturezas-mortas. Uma delas mostra limões e um copo d'água.
Dezesseis séculos antes de os pintores holandeses transformarem a mesa posta num gênero inteiro, alguém já tinha decidido que uma fruta ao lado de um copo merecia uma parede.
Eu fui atrás do assunto porque este mês estou pensando em mesa, e achei que ia encontrar decoração. Encontrei uma discussão de trezentos anos sobre o que vale a pena pintar.
Por que os holandeses acabaram pintando mesa
A explicação é econômica e eu achei ótima.
Na Holanda do século XVII, o pintor que não tinha talento para retrato não podia mais contar com encomenda. Ele tinha que pintar o quadro primeiro e procurar comprador depois — em barraca de mercado, ou por meio de negociantes que compravam o mais barato que conseguiam.
Com muita gente disputando a mesma cidade, o único caminho para um pintor menor construir reputação era se especializar em um único assunto. Então surgiram os pintores de peixe. Os de marinha. Os de luar. Simon Vlieger, que viveu de 1601 a 1653, é citado como um dos mais antigos especialistas em cenas marítimas.
E surgiram os pintores de mesa.
Não foi uma escolha espiritual sobre a beleza das coisas simples. Foi um mercado apertado empurrando gente para nichos.
Os dois homens que pintaram sobras
Pieter Claesz, nascido por volta de 1597 em Burgsteinfurt e morto em Haarlem em 1661, tinha um assunto característico registrado assim: mesas postas para uma refeição, ou com os restos de uma.
Os restos. Alguém construiu uma carreira inteira pintando o que sobra depois que as pessoas se levantam.
Depois de 1630 ele passou a organizar essas composições em esquemas geométricos baseados na secção áurea. As obras datadas seguem uma por ano como um diário: Natureza-morta com copo de cerveja, 1627. Almoço com jarro de estanho, 1643. Natureza-morta com jarro, 1644. Natureza-morta com um patê, 1647. Copo grande, 1649.
Willem Claesz Heda, nascido por volta de 1593 e morto por volta de 1680, os dois em Haarlem, começou com retrato e assunto religioso antes de se especializar. A obra datada mais antiga dele é uma vanitas de 1621.
E Heda tinha uma preferência que eu acho reveladora: ele preferia as mesas de casas burguesas às mesas suntuosas. Casa de gente comum, louça de gente comum.
Ele é celebrado pelas naturezas-mortas ditas "monocromáticas", construídas em meios-tons e veladuras transparentes sobre uma cor só. A sobremesa, de 1637, é feita em cinzas acinzentados e prateados. Do mesmo ano, uma natureza-morta em que um jarro de estanho na sombra aparece contra um cachimbo branco brilhante. E outra, ainda de 1637, descrita como ouro sobre ouro.
Três quadros num ano, cada um resolvendo um problema diferente de luz sobre uma mesa.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
O que uma mesa era, para um pintor
A mesa posta virou laboratório.
Willem Kalf usava a mesa para estudar como a luz é refletida e quebrada por vidro colorido, e passou a carreira procurando novas harmonias entre tapete persa, porcelana azul e fruta de cor intensa.
É a mesma coisa que uma vela faz na sua sala em dezembro, com a diferença de que ele podia ficar três semanas olhando.
Isso deixa uma lição prática, e é a razão de eu ter escrito este post no meio de um mês sobre ceia: uma mesa é interessante por causa dos materiais, não por causa da comida. Vidro, metal, cerâmica, casca, tecido. O que os holandeses estavam pintando era um conjunto de superfícies com comportamentos diferentes debaixo da mesma luz.
Se você já montou uma mesa e achou que faltava alguma coisa, é quase sempre isso: falta uma superfície que se comporta diferente das outras.
O ranking que colocava isso tudo embaixo
Existia uma hierarquia oficial, e ela era severa.
Críticos do século XVII sustentavam que pintar um retrato ou uma paisagem do natural era trabalho servil, porque a mão apenas copiava o que o olho via. Pintura de história — o assunto elevado — exigia erudição e imaginação.
Reynolds, primeiro presidente da recém-fundada Royal Academy, encheu os discursos dele de exortações a assuntos nobres e dignos.
Uma nota de honestidade: o livro que eu li nomeia retrato e paisagem nessa conta, e não diz onde exatamente a natureza-morta ficava nessa escada. Eu não vou inventar o degrau. Mas dá para deduzir que não era em cima.
Ou seja: a mesa posta foi pintada durante dois séculos por gente que estava, oficialmente, fazendo a coisa menos importante que se podia fazer com tinta.
O sujeito que entrou para a Academia com um peixe
Chardin, 1699 a 1779, começou na oficina de carpintaria do pai.
Ele expôs pela primeira vez em 1728, na Exposição da Juventude, na Place Dauphine — uma mostra ao ar livre que acontecia uma manhã por ano. Levou uma raia e um aparador. Duas naturezas-mortas.
Foi admitido na Académie Royale dois meses depois.
Uma manhã por ano, um peixe e um móvel, e dois meses depois ele estava dentro da instituição que dizia que aquilo era o degrau de baixo.
Em 1738 os quadros dele já eram vendidos antes do Salão abrir, e ele era obrigado a pintar réplicas.
Ele também pintou O Benedicite, uma mulher servindo o jantar e pedindo a duas crianças que agradeçam. Sobre a data eu preciso ser chata: um dos meus livros dá 1739 como o ano do quadro e o outro diz que foi exposto no Salão de 1740. Pintado e exposto não são a mesma coisa, e nenhum dos dois reconcilia. Fica registrado assim.
E depois alguém desmontou a mesa
O último quadro dessa história é de cerca de 1878, de Cézanne.
Numa natureza-morta dele, o pé da fruteira não está no meio. A mesa cai da esquerda para a direita e ao mesmo tempo parece inclinada para a frente. O guardanapo, que num holandês seria macio e fofo, parece feito de papel-alumínio.
A leitura que eu levei comigo: o mestre holandês pintava a mesa para exibir virtuosismo, e Cézanne repintou a mesa como se ninguém nunca tivesse pintado uma antes.
Duzentos e cinquenta anos para chegar num homem que olhou para uma mesa posta e decidiu que ela não precisava ficar plana.
O que eu levo para dezembro
Três coisas, e nenhuma precisa de museu:
Materiais, não comida. O que faz uma mesa render é vidro ao lado de metal ao lado de barro. Escolha por superfície.
Os restos também contam. Claesz pintou o depois. A mesa às onze da noite, com casca, migalha e taça pela metade, é o quadro que eles escolheram fazer.
A luz é o assunto. Kalf passou a vida nisso. Você tem uma vela e uma noite quente.
Se você quiser o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, está tudo numa página só — a mesa, a casa, a ceia. E sobre a mesa de verdade, a história da cadeira que sobra na ceia está aqui.
Me conta: você já tirou foto da mesa depois que todo mundo levantou? Eu tirei uma no ano passado sem pensar e é a melhor da noite.
Grátis
Leve o checklist da mesa de Natal
Tudo o que importa numa mesa de Natal, em uma folha só. Para imprimir ou preencher no computador.
Chega na hora. Depois, a minha newsletter — e você sai quando quiser.
