
Entre 1700 e 1750 existiu uma luva feminina com as pontas dos dedos cortadas. Ninguém anotou por quê.
O dicionário de moda que eu uso tem um verbete chamado cut-fingered gloves, luvas de dedos cortados, e ele traz duas modas completamente diferentes com o mesmo nome.
A segunda é esta:
"Período: cerca de 1700–1750. As pontas dos dedos eram cortadas e ficavam abertas, uma moda restrita às mulheres."
Cinquenta anos. Só mulheres. E duas notas de compra para provar:
"Meia dúzia de luvas de dedos cortados" (1719, contas do Conde de Thanet). E "2 pares de luvas finas brancas de linha, com os dedos abertos" (1740, contas da família Purefoy).
E é só isso.
O livro não diz por quê. Nem uma linha. Não diz para que servia a ponta aberta, quanto se cortava, se eram os cinco dedos ou alguns, quem parou de usar, nem quando a moda acabou.
Eu passei um tempo tentando adivinhar e desisti. O que o dicionário registra é que existiu, por meio século, e que ninguém achou necessário explicar.
A primeira versão, essa sim tem motivo
Cem anos antes, o mesmo nome descreve outra coisa.
"Período: fim do século XVI. Os dedos da luva eram talhados para revelar os anéis por baixo."
Talhados, não cortados na ponta. Fendas ao longo do dedo, para o anel aparecer.
E o dicionário traz o verso que denuncia a moda:
"But he must cut his glove to show his pride / That his trim jewel might be better spy'd" — mas ele precisa cortar a luva para mostrar seu orgulho, para que sua bela joia seja melhor avistada. É de 1597.
Uma luva rasgada de propósito para que o anel apareça. A vaidade tem quatrocentos e vinte e nove anos e um endereço.
O mesmo problema, resolvido por um camponês
Essa é a minha parte favorita e vem de um verbete completamente separado.
Mitten, mitene, do século XIII em diante: "uma luva com uma cobertura única para os dedos e uma para o polegar."
E então:
"A palma às vezes tinha uma fenda horizontal, para permitir que os dedos saíssem sem precisar tirar a mitene."
Uma fenda na palma. Você enfia os dedos para fora pelo buraco, faz o que precisa, e recolhe.
Repare que é exatamente a mesma pergunta da luva de ponta cortada, só que respondida por quem trabalhava ao ar livre em vez de quem ia a um baile: como manter a mão coberta e ainda assim usá-la?
Seiscentos anos de gente resolvendo isso de jeitos diferentes.
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E aí, por volta de 1640, a luva sobe até o cotovelo
"Até cerca de 1640, quando luvas até o cotovelo, justas, de couro fino ou seda, e frequentemente brancas, às vezes bordadas, começaram a ficar na moda e essenciais para traje de gala."
No século XVIII, elas ficam "universais, exceto com traje de montaria."
E aí surge um problema de engenharia que eu nunca tinha pensado: luva comprida cai.
A solução tem verbete próprio. Glove-band, cerca de 1640 a 1700: "Uma faixa de fita ou de crina trançada, amarrada no cotovelo por cima de uma luva longa, para mantê-la no lugar."
Crina trançada. Amarrada no cotovelo. Por baixo de tudo, ninguém via.
No século XVIII ela vira glove-string, com fita ou crina, "amarrada ou afivelada no cotovelo". E aí o dicionário cita uma revista de 1783:
"Fivelas de diamante nas glove-strings" — para traje de gala.
Fivela de diamante numa tira que existe só para a luva não escorregar. Eu acho isso magnífico e um pouco absurdo, nas proporções certas.
A luva com o nome mentiroso
Chicken-skin gloves, luvas de pele de galinha, do fim do século XVII ao começo do XIX.
O nome sugere uma coisa. A realidade é outra, e o dicionário resolve citando uma conta de loja de 1778, de um perfumista chamado Warren:
"O nome levou algumas pessoas a pensar que eram feitas de pele de galinha; mas, ao contrário, são feitas de um couro fino e forte que é tratado com amêndoas e espermacete."
Amêndoas. Para uma luva.
Cuidado com a atribuição: isso é o perfumista dizendo, na conta dele, não o dicionário afirmando. O dicionário só diz, com a própria voz, que "as luvas eram frequentemente feitas de outros couros".
E para que serviam? Um verso de 1690, de John Evelyn: "Algumas de pele de galinha à noite / Para manter as Mãos dela cheias, macias e brancas."
À noite. Era luva de dormir.
Tem uma vizinha com o mesmo problema de nome: as Limerick gloves, de cerca de 1750 a 1850, "longas ou curtas, feitas de couro muito fino, que se diz ser feito da pele de cordeiros não nascidos." Aquele "que se diz" é do dicionário, e eu mantenho.
A curva da luva de noite, em datas
Essa é a sequência mais limpa do verbete inteiro, e ela é sobre uma coisa só: comprimento.
Século XIX: "Ou curtas até o pulso, ou longas até o cotovelo; coloridas durante o dia, mas brancas à noite."
E então:
"Uma luva curta de noite esteve na moda de 1830 a 1865; depois disso ela se alongou e, pelos anos 1890, subiu para além do cotovelo."
Trinta e cinco anos curta, depois trinta anos subindo. A luva de noite passou o século inteiro se mexendo.
Uma contradição que eu preciso apontar, porque está no mesmo livro. O verbete das luvas masculinas diz que, no século XIX, elas eram "coloridas para o dia, com branco para as noites e lilás para casamentos", até cerca de 1870. Mas o verbete do traje de casamento diz que o lilás foi usado a partir de cerca de 1870.
Um diz antes, o outro diz depois. O dicionário não escolhe, e eu não vou escolher por ele.
O único fato de mesa em toda a família das luvas
E ele é sobre mesa de carteado, não de jantar.
Muffetees, séculos XVIII e XIX: "Pequenos regalos de pulso, feitos aos pares, usados para aquecer ou para proteger os babados do punho na hora de jogar cartas."
Proteger o babado do punho durante o jogo. É uma peça inventada para um problema muito específico de uma noite muito específica.
E existe uma carta de 1748 pedindo um par: "Por favor, compre para a minha mãe um par de muftees francesas de seda preta para as mãos... precisam ter polegar."
Precisam ter polegar. Isso é uma mulher do século XVIII sabendo exatamente o que ela quer.
O que o dicionário não diz, e é grande
Duas ausências que eu preciso registrar.
A primeira: ele nunca diz que se tirava a luva à mesa. Nem uma vez. A palavra "mesa" não aparece em nenhum verbete de luva, mitene ou regalo. Nem jantar, nem comer, nem comida. Se existe uma regra sobre luva e talher, ela não está aqui.
A segunda: não existe uma única medida. Nenhuma polegada, nenhum centímetro, nenhuma contagem de botões, em toda a família de verbetes. O comprimento é sempre dado por referência do corpo: até o pulso, até o cotovelo, "acima do cotovelo", "até os nós dos dedos". O dicionário mede em partes de mão e braço, e nunca em números.
Por que isso interessa a quem recebe gente em casa
Porque a luva responde à mesma pergunta que eu já tinha encontrado do lado do bolso: o que você precisa da sua mão, e do que você precisa dentro dela, enquanto está de pé a noite inteira.
Só que a luva responde de um jeito mais radical, porque ela cobre a ferramenta. Toda versão dela em seiscentos anos é uma negociação: quanto da mão eu devolvo?
A mitene devolve os dedos por uma fenda. A luva do fim do século XVI devolve o anel. A de 1700 devolve as pontas, por um motivo que se perdeu. A muffetee não cobre a mão nenhuma, só protege o babado.
E aí vem a frase do século XX que fecha tudo: "gradualmente as luvas se tornaram menos essenciais, exceto para o calor do inverno."
Seiscentos anos negociando com a mão, e no fim a mão ganhou.
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