
Ouropel era tecido antes de ser enfeite: no século XVI, seda tecida com fio de ouro de verdade
No século XVI, tinsel era um tecido: "um tecido rico de seda, liso ou estampado, entretecido com uma trama de fios ou tiras de ouro ou prata."
Hoje é aquela fita metalizada de plástico que a gente enrola na árvore.
A mesma palavra. Foi de seda com ouro dentro para enfeite de dois reais, e o caminho entre uma coisa e outra está documentado.
A descida
O primeiro degrau está registrado no próprio verbete: o termo passou a ser aplicado também a uma rede brilhante, e a imitações mais baratas feitas com fio de cobre, populares para figurino de teatro.
Ouro de verdade, depois cobre, depois palco. O livro não diz em que ano essa troca aconteceu, e eu não vou inventar a data.
Mas em 1748 o ouropel ainda estava na cabeça das pessoas, como enfeite de penteado. Uma descrição de pompon daquele ano lista as formas possíveis: "borboletas, plumas, ouropel, crista de galo, renda, etc."
E em 1883, quando o ouropel de árvore já estava quase inventado, ainda se vendia tecido de vestido feito com ele: o Bulgarian cloth, "um tecido de algodão cor de creme, liso ou listrado, trabalhado com ouropel e seda colorida."
E na década seguinte ele foi para a árvore
Do outro lado, na história da decoração, a cronologia é igualmente datada.
1878: os primeiros "gelinhos" são produzidos em Nuremberg, na Alemanha.
Anos 1890: a Alemanha passa a produzir guirlandas de ouropel em rolo para árvores. Ganchinhos de metal para enfeite chegam em 1892.
1895: a árvore de Grover Cleveland na Casa Branca, a primeira a ostentar luz elétrica, é descrita como tendo anjos dourados, trenós de ouro e prata, piões e ouropel.
Uma nota de honestidade, porque isso importa. Esses dados vêm de dois livros diferentes: a definição têxtil de um dicionário de moda, a cronologia da árvore de uma enciclopédia de Natal. Nenhuma das duas fontes liga uma coisa à outra causalmente. Eu estou pondo as duas linhas do tempo lado a lado porque elas se tocam nos anos 1880 e 90, não porque alguém tenha provado a passagem.
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O tecido mais caro do guarda-roupa medieval
Já que estamos falando de fio de metal, vale conhecer o topo da lista.
Chamava-se tissue, e a definição é: "a forma mais custosa de tecido de ouro ou prata, tecida com laçadas em relevo de fio metálico" sobre um fundo de brocatel, lampas ou veludo.
Laçadas em relevo. O metal não estava só atravessando o tecido, estava saindo dele.
De um enxoval real de 1612–13, uma linha de inventário: "oito jardas de tissue verde-mar para mangas duplas de vestidos de montaria." Alguém anotou isso numa lista de compras.
E a palavra decaiu igual: a partir do século XVIII, tissue passou a significar apenas "tecido leve e brilhante". Hoje é o papel de seda em que vem a roupa nova.
O vestido que foi projetado para a luz de vela
Aqui está a parte que amarra este post ao mês inteiro.
Um manto de corte de 1753 foi tecido com fio de seda e tiras de metal prateado achatado. E a descrição do que ele faz é explícita: "pelo menos 14 cores diferentes e quatro tipos de fio de prata foram usados, refletindo a luz de maneiras diferentes e brilhando lindamente à luz de vela."
Quatro tipos de fio de prata, escolhidos porque devolvem luz de quatro jeitos.
Isso não é vaidade. É engenharia óptica para uma sala iluminada por chama, feita por gente que sabia exatamente qual seria a fonte de luz da noite.
Um outro manto, usado na corte de Jorge II, foi bordado com mais de cinco quilos de fio de prata metálico. Cinco quilos de metal costurados numa roupa.
E vestidos assim largos, com as saias de armação que entraram na moda de corte nos anos 1740, tinham uma consequência doméstica que eu adoro: quem os usava era obrigada a passar de lado pelas portas.
O mesmo raciocínio aparece um século antes. Entre 1625 e 1635, os vestidos usavam "cetins de seda de cores claras que reluziam à luz de vela."
A mesma técnica, sem metal nenhum
E o truque que me interessa mais, porque não custa nada.
Num gibão da Saxônia do início do século XVI, o desenho grande de romã é feito contrastando o fosco e o brilho de duas direções de tecelagem, que pegam a luz de formas diferentes. E era mais caro que um tecido liso.
Ou seja: dá para fazer uma superfície reagir à luz sem acrescentar uma única partícula brilhante. Basta o mesmo fio, virado para dois lados.
É exatamente o que o damasco faz numa toalha, e é o que faz uma roupa lisa não parecer morta numa foto de noite.
As lantejoulas são mais velhas do que parecem
Uma linha rápida de cronologia, porque me surpreendeu.
Spangles, as lantejoulas antigas, são datadas do século XV ao XIX: pequenas peças de material brilhante, geralmente metálico, originalmente em forma de losango e depois circulares, costuradas nas roupas.
Séculos costurando pedacinho de metal na roupa antes de existir plástico.
E as palavras que sobraram guardam o metal que sumiu: lamé, a partir dos anos 1920, vem do francês para "tira de metal". Lurex, a partir dos anos 1940, é a marca registrada de uma empresa americana para a fibra metálica dela.
A palavra continua dizendo metal muito depois de o metal ter ido embora.
O que eu faço com isso na prática
Três coisas, e nenhuma exige comprar tecido caro:
Uma superfície que reage à luz vale mais que uma superfície brilhante. Cetim liso, um bordado em relevo, um tecido com dois sentidos de trama. O barato-brilhante devolve tudo de uma vez e vira flash; o outro devolve devagar.
Escolha pensando na fonte de luz da noite, não da loja. O manto de 1753 foi construído para chama. Se a sua ceia é à luz de vela, prove a roupa perto de uma vela, não debaixo da luz branca do provador.
Um detalhe metálico rende mais que uma roupa metálica. Cinco quilos de prata foi uma decisão de corte real. Um botão, um fio no punho, um brinco resolve o mesmo problema num país de 33 graus.
E, no fundo, a coisa que eu não consigo largar: aquela fita da sua árvore e um vestido de corte do século XVI são a mesma palavra. A árvore está usando uma roupa antiga que ninguém veste mais.
Se você quiser o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, reuni tudo numa página — a mesa, a casa, a ceia. E sobre roupa feita para receber dentro de casa, existiu um vestido só para isso, e era sem espartilho.
Me conta: você tem alguma coisa brilhante que só sai do armário em dezembro? Aqui é uma echarpe da minha mãe que já foi de vestido.
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