
Em 529, a punição para o monge atrasado era jantar sozinho, sem vinho e sem toalha
Em 529, a Regra da Ordem de São Bento determinou que o monge que chegasse atrasado à mesa deveria comer sozinho, sem direito a vinho e sem direito a toalha.
Leia de novo a última parte. A toalha entrava na mesma lista do vinho e da companhia. Era coisa que se tirava de alguém como punição.
Isso reorganizou a minha cabeça sobre um pedaço de pano que eu tratava como decoração.
Antes da toalha existia outra coisa
Os romanos não tinham toalha de mesa, porque comiam reclinados em sofás. O que eles tinham era o gausape, um pano de lã felpudo de um lado e liso do outro, que servia de guardanapo, de toalha de mão e de lençol.
A toalha só vira objeto separado quando as pessoas passam a comer sentadas à mesa, um costume que os livros datam do século V, sob Meroveu, rei dos francos.
E aqui está a etimologia que eu adorei: a mesa daquela época era uma tábua sobre dois cavaletes. Uma prancha. Por isso o pano se chamava "borde cloth", pano de tábua. Só no século XVI, quando a nobreza passou a ter mesas maciças, é que virou table cloth, pano de mesa.
Do século VI, um poema de Venâncio Fortunato para a rainha Radegunda descreve uma toalha feita de rosas.
A toalha caía de um lado só
Essa é a parte que mais me divertiu, porque a razão é prática de um jeito quase cômico.
Na Idade Média, a mesa ficava encostada na parede, para que ninguém pudesse ser atacado por trás. Então a toalha só descia até o chão do lado dos convidados, com duas funções declaradas: proteger o joelho das pessoas das correntes de ar, e impedir que os animais andassem por cima dos pés delas.
Quando as toalhas passaram a alcançar o chão dos quatro lados, amarravam-se as pontas para não sujarem. Segundo o livro, esse costume decorativo continua até hoje.
E a mesa medieval não tinha uma toalha, tinha três ao mesmo tempo: uma por cima, retirada depois do primeiro prato; uma limpa por baixo dela; e uma terceira, pendurada na lateral, que fazia as vezes de guardanapo comunitário. A sobremesa se comia na mesa nua.
Por que branca
A resposta é mais antiga do que a moda.
As toalhas de cima eram brancas por serem "uma cor simbólica da pureza, da refeição sagrada original e da santidade da toalha de altar." A de baixo era escura. Estampado — listra, xadrez — era coisa de zona rural.
Depois entrou a segunda razão, que é ótica. Do século XVI ao XIX, o tecido nobre era o damasco, reversível, tecido em Damasco e trazido para a Europa pelos cruzados, com desenhos que contavam histórias: coroações, batalhas, brasões.
E a frase que explica tudo: "numa era sem eletricidade, o brilho do damasco branco contrastava com a madeira escura dos móveis e dos painéis."
Ou seja, a mesa é branca porque, à luz de vela, o branco era a única coisa que devolvia luz para o rosto de quem sentava. A toalha era iluminação.
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Um detalhe que eu não consigo superar
Os tapetes orientais eram populares como toalha de mesa.
Eram considerados valiosos demais para ficar no chão. Então iam para a mesa, e na hora da refeição eram protegidos por uma sobretoalha de damasco branco, que se levantava depois para mostrar o desenho.
O tapete na mesa, o pano branco por cima do tapete. Inversão completa da nossa casa.
Quantas toalhas uma casa precisava
No início do século XVII, uma casa modesta podia ter quarenta toalhas guardadas nas arcas. Quarenta.
O tecido se media em ells: 27 polegadas na Holanda, cerca de 45 na Inglaterra.
O número caiu no século XIX por uma mudança de serviço. No serviço à francesa, tudo ia para a mesa de uma vez, e eram precisas várias toalhas para manter aquilo apresentável ao longo do jantar. Quando entrou o serviço à russa, com os pratos oferecidos um a um, uma toalha bastava.
Os vitorianos ainda hesitaram no meio do caminho, com as chamadas "toalhas de acidente", postas sobre as pontas da mesa e retiradas antes do último prato.
O jogo americano tem sobrenome
Isto é verdade e eu não sabia.
O jogo americano surgiu no século XVII quando um comerciante de tecidos londrino chamado Doyley forrou um sub-prato com um pequeno pano de linho, para segurar a tigela no lugar. Um manual de etiqueta de 1906 aprovou o uso do jogo com o argumento de que ele mantinha a toalha limpa.
E o pano acolchoado que vai por baixo da toalha se chama silence cloth, pano de silêncio. No século XIX ele era considerado vulgar, com uma exceção: a baeta, lã grossa marrom-avermelhada, muitas vezes tingida de verde, que isolava a mesa e, amarrada nas pontas, impedia a toalha de embolar.
O que a toalha vira na noite de Natal
Em vários lugares da Europa, a toalha de 24 de dezembro não é enfeite, é o objeto central da noite.
Na Ucrânia põem-se duas toalhas, uma sobre a outra. A primeira é branca, simbolizando os familiares mortos. A de cima é bordada, e simboliza os que estão vivos. Amarra-se ainda uma corda ou corrente em volta dos pés da mesa, pelos laços de família.
Na Eslováquia, colocam-se escamas de peixe embaixo dos pratos ou embaixo da toalha, para dar sorte.
Na Romênia, escondem-se nos quatro cantos, debaixo do pano, uma moeda, milho, um espelho e um pedaço de carvão, e as crianças descobrem cada um.
Na Lituânia, na ceia de Kūčios, põe-se feno debaixo da toalha branca e servem-se doze pratos sem carne.
Repare no padrão: em todos esses lugares, a toalha é uma camada que esconde alguma coisa. Ela não está ali para ficar bonita. Está ali porque debaixo dela tem sentido.
As medidas, para a sua mesa
Os números do livro, em polegadas, com a minha conta em centímetros ao lado.
A mesa de jantar média tem 27 polegadas de altura, cerca de 69 cm, e o assento da cadeira 16,5 polegadas, cerca de 42 cm.
A queda da toalha num jantar arrumado é de 10 a 15 polegadas, de 25 a 38 cm — e a razão é que essa ponta descansa no colo de quem senta. Informal, uns 25 cm. Mesa de chá aceita até 45.
Um caminho de mesa tem de 35 a 43 cm de largura, com queda de uns 38, e entre um jogo americano e outro o mínimo é 10 cm.
Na minha mesa de 1,20 por 0,80, isso dá uma toalha de mais ou menos 1,70 por 1,30. As contas em centímetros são minhas; o livro só dá polegadas.
O que acabou com tudo isso
Os sintéticos, no fim dos anos 1960.
Antes deles, as toalhas eram, nas palavras do livro, "estimadas, remendadas e deixadas em testamento". Um pano de mesa passava de mão em mão dentro de uma família porque ninguém ia comprar outro.
Eu tenho uma toalha da minha avó. Ela tem uma mancha que não sai e um remendo no canto, e eu passei anos achando que ela era a versão pior da toalha nova. Depois de ler isso, é o contrário.
O que eu faço agora
Toalha em vez de jogo, sempre que couber gente demais — a toalha deixa os cotovelos se organizarem, o jogo marca território.
E branca, não por elegância, mas porque a mesa vai estar iluminada por vela e o branco é o que devolve essa luz para o rosto de todo mundo.
Se você quiser o resto do que a gente está escrevendo sobre dezembro, reuni tudo numa página — a mesa, a casa, a ceia. E já que a terceira toalha medieval era o guardanapo de todo mundo, a história do guardanapo eu contei aqui.
Me conta: você tem alguma toalha herdada? Eu quero saber de quem era e o que aconteceu com ela.
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